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3 Anos

    uma menina negra sozinha esta de costas para a câmara no recreio do jardim escola, enquanto os outros meninos brincam juntos

    Ontem, deparei-me com uma publicação do Expresso, datada de 13 de dezembro de 2024, que me chamou a atenção. No podcast A Beleza das Pequenas Coisas, do jornalista Bernardo Mendonça, foi entrevistada a artista Selma Uamusse. Durante a conversa, Selma partilhou um caso de racismo vivido pela sua filha pequena. Aqui está o episódio completo: Podcast com Selma Uamusse.

    A história é difícil de ouvir: durante duas semanas, a menina de 3 anos não quis ir à escola porque havia um colega que “descobriu que a mãe dela era preta e disse: ‘Tu és preta porque a tua mãe é preta e tu não mereces estar aqui. Tu és feia, volta para a tua terra.’”

    Wow. Não sei que idade tem o menino, mas que já tem um discurso de ódio muito bem elaborado para a sua idade, isso já tem… O crédito irá para os pais ou cuidadores.

    Outra vez uma publicação sobre racismo? Sim!

    E sim, também tenho as minhas histórias. Histórias que vêm de muito cedo, ainda no pré-escolar, como a da filha da Selma. Vou contar-vos algumas delas.

    Lembro-me do meu primeiro infantário. Foi lá que vivi um dos episódios mais marcantes: a chapada que me fez cair para trás, juntamente com a cadeirinha, porque não queria comer a sopa.

    Depois, há a história de Natal… Era o dia da festa do infantário, havia uma peça de teatro e eu tinha uma fala. Estava num auditório, com uma plateia à minha frente. Terminei a minha fala e, no meio da assistência, dois meninos riram-se de mim e chamaram-me de preta… Fez-se silêncio, but the show must go on. Ninguém interveio, ninguém me defendeu. Os meus pais deviam estar a trabalhar.

    Penso que esta é a minha primeira memória de racismo. Mas também é a minha primeira memória de desamparo, de solidão e de vergonha.

    Eventualmente, a minha mãe percebeu que aquele lugar não era para mim. Mudou-me de escola, mas não me lembro dela me ter explicado o porquê. Não me lembro da minha dor ser vista, compreendida ou ouvida. Muito cedo, aprendi a ficar calada.

    No infantário seguinte, a experiência foi diferente. Fui feliz. Guardo boas memórias das atividades, como picotar imagens numa esponja. Gostava muito. Recordo-me da hora da sesta, quando íamos buscar os nossos colchõezinhos. E tenho uma memória olfativa dos bolos de bacalhau que eram feitos na cozinha da escola — feitos com um amor que já não há. Vagueia na minha mente a imagem da senhora cozinheira, a sorrir para mim.

    Reflexão e Encorajamento

    Os episódios de racismo que vivemos na infância deixam marcas profundas. Eles ensinam-nos, demasiado cedo, que o mundo pode ser injusto e cruel. No entanto, com o passar do tempo, aprendemos que não temos de ficar calados.

    Hoje, escrevo estas palavras para dar voz à minha menina que não sabia como reagir. Escrevo por todas as crianças que se sentiram ou se sentem sozinhas, que carregam a vergonha de algo que nunca foi culpa delas.

    Se tens histórias como estas, lembra-te: a dor precisa de ser ouvida para ser curada. Não guardes tudo para ti. Procura apoio, partilha, não permitas que o silêncio perpetue a injustiça.

    E aos pais e cuidadores, deixo um apelo: estejam atentos. Ensinem as vossas crianças a respeitar e a valorizar a diversidade. O preconceito é aprendido em casa, mas a empatia também pode e deve ser ensinada.

    É preciso coragem para quebrar ciclos, para dar nome às dores e para construir um mundo melhor. Vamos começar por aqui. Não te cales.

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