Só sobramos nós, os loucos.
Os que não lavam os dentes nem tomam banho.
Não penteiam o cabelo.
E andam por aí descabelados.
Só restamos nós, os insensatos.
Os que tomam xanax, fumam erva, haxixe, heroína e traficam.
Tudo o que for preciso para adormecer as nossas dores
— e as dores dos outros.
Porque os outros não suportam a nossa histeria.
E é por essa razão que tomamos a nossa dose em dobro:
por eles e por nós.
Só sobejamos nós, os malucos,
que nos fazemos de sãos neste mundo desatinado.
Por imposição, somos todos pós-graduados em:
não incomodar,
não falar,
não gritar,
não perguntar,
fingir que não queremos saber,
fingir que está tudo bem,
fingir que acreditamos,
que temos esperança,
fingir que gostamos,
fingir que somos nós — mas de maneira diferente.
Porque se formos nós mesmos,
vem a ambulância para nos levar a todos
para uma urgência psiquiátrica qualquer.
Mas nem eles nos querem lá.
Então fugimos o mais depressa que nos é possível.
Tentamos não olhar para trás.
Escondemo-nos noutra cidade,
na esperança de que não deem por nós.
Respiramos fundo.
E depois consumimos.
Fumamos.
Estudamos.
Até à próxima crise.
Até ao próximo desespero.
Só transbordamos nós, os obsessivos-compulsivos,
que nos abraçamos a nós mesmos de noite
e choramos por nós,
por tudo
e por todos.
Só abundamos nós, os que têm uma pancada,
os que dizem olá a conhecidos e desconhecidos
porque estão carentes.
Dependentes.
Necessitados.
Desamparados.
Privados de Amor.
