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À sombra da mentira

    uma mulher sentada numa cama com as mãos cruzadas sobre o colo, não aparece o rosto só o tronco e as pernas

    Há precisamente um ano, tive uma crise emocional que levou a uma paragem abrupta no meu tratamento psicológico.

    Perdi a confiança na minha psiquiatra quando, no meio do caos, ela me mandou “ir trabalhar”. Só isto dava pano para mangas, mas hoje não é por aí que quero ir.

    A ironia da minha vida é esta: as duas pessoas que mais me mentem nos últimos tempos estão hoje, agora, enquanto escrevo, na mesma casa que eu.

    O crime compensa?
    Ou melhor: a mentira compensa — e compensa muito.

    Vamos aos factos.

    Segundo o Dicionário Universal da Língua Portuguesa, da Texto Editora:

    • Mentir (do lat. mentire, por mentiri), v. int. faltar à verdade; enganar; errar; falhar.
    • Mentira (do lat. mentita), s.f. afirmação contrária à verdade; falsidade; ficção; ilusão; juízo errado; indução em erro; persuasão falsa.
    • Mentiroso, adj. e s.m. aquele que mente; enganoso; aparente; doloso; falso; impostor; oposto à verdade.

    Mentira é também ficção. Adorei. Assim fica mais fácil admitir que vivemos todos num universo ficcional. Fica mais engraçado. Mais leve. Digo eu…

    Eu sei que nada disto é preto no branco. Vivemos todos em zonas cinzentas. Mas, pessoalmente, gosto das minhas Shades of Grey mais para o clarinho.

    Enganar. Ilusão. Impostor.
    São estas as formas de mentira que mais me ferem — sobretudo quando vêm de quem devia ser abrigo.

    Talvez seja por isso que lido tão mal com mentiras. Abomino mentiras e quem mente.
    Desprezo ainda mais quem as encobre.
    Porque, às vezes — senão sempre — é mais fácil mentir do que dizer a verdade.

    Mentem-me para eu não ficar chateada. Mas não é isto um contrassenso?
    Fico duplamente chateada. E o nosso relacionamento paga a fatura.

    Neste momento, lido com uma pessoa que mente. Mente muito.

    Não é mais fácil lidarmos com a verdade? Mesmo quando é feia? Mesmo quando dói?

    Pergunto eu.
    Mas quem sou eu?

    Sou a que fica à margem. Porque não alinho no conluio. Porque sei muito bem do que gosto e do que não gosto — e não tenho medo de o dizer.

    Percebo agora que estas mentiras todas têm também um propósito: silenciar-me.
    E tenho que dar o braço a torcer — está a resultar.

    Fico triste.
    Fico na dor.
    Fico à margem.

    Só. Desamparada.
    Abandonada.
    Sempre na margem.

    Para pensar:

    Não é só o acto de mentir que magoa — é o silêncio que impõe, o espaço que ocupa, a confiança que destrói.

    E se a mentira for uma forma de controlo emocional?
    E se o objectivo nem for proteger ninguém, mas sim manter as coisas confortáveis para quem mente?

    Vale mesmo a pena manter relações onde a verdade é opcional?
    Quantas vezes é que o preço de não chatear ninguém é o nosso próprio abandono?

    Ficar à margem dói — mas dói ainda mais fingir que estamos no centro quando, na verdade, já fomos empurrados para fora há muito tempo.

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