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Adolescência

    uma pequena casa inglesa

    Um Mergulho na Realidade Crua da Inglaterra

    Acabei de ver dois episódios da tão falada série Adolescence e fiquei impressionada. É brutal. Muito boa mesmo. Merece todo o hype que tem gerado — não só pela relevância do tema, mas pela qualidade dos atores, desde os mais experientes, como Stephen Graham, até aos jovens talentos.

    Tenho que admitir: os ingleses são mestres em produzir séries que espelham a realidade e têm a ousadia de abordar temas que muitos preferem ignorar. A última série inglesa que vi foi Sex Education. Comparada com Adolescence, parece-me agora um produto higienizado. Nem a atuação da Gillian Anderson, de quem sou fã desde os Ficheiros Secretos, me convenceu. Apesar de ter aprendido algumas coisas sobre o universo LGBTQ+, no final senti que tinha assistido a propaganda. Curiosamente, Emma Mackey — o grande amor da personagem principal — representa agora uma marca de perfumes. O mais convincente na sua personagem era mesmo o guarda-roupa. Já Ncuti Gatwa brilhou à sua maneira.

    Antes destas, houve Skins, também controversa. Não acompanhei. Na altura, ao fazer zapping, se apanhasse a série, era só uma espreitadela rápida — parecia que estavam sempre em cenas de sexo. E era constrangedor se os meus pais entrassem na sala. Nunca se falou abertamente sobre esses temas em casa. Quem sabe se a Netflix não resolve pôr Skins no catálogo? Eu agradecia.

    Voltando ao que vi hoje: vivi oito anos na Inglaterra. No primeiro episódio, quando apareceram aquelas casas de tijolo vermelho todas iguais, até senti o cheiro característico da erva. O sistema de saúde deles funciona com parcerias público-privadas, onde o lucro é o principal utente. Os médicos não prescrevem calmantes como por cá, então a população — que também tem as suas dores — recorre à cannabis e ao álcool. Tive uma colega que, numa fase difícil da vida, fumava erva. No meu último emprego, quando um casal ia visitar a mãe num lar onde trabalhei, também cheiravam a erva. Suponho que fosse para se manterem calmos durante a visita. Sinceramente? Compreendo.

    Apesar do enredo bem conseguido e de, no segundo episódio, começarmos a perceber os porquês, no fim senti apenas uma coisa: gratidão por estar de volta a Portugal. Este país tem uma qualidade de vida que só quem viveu fora consegue realmente valorizar. Sei que nem tudo é perfeito — e foi por isso que fui embora. Na altura, sentia-me exilada. E, sejamos honestos, são os próprios políticos que nos mandam emigrar.

    A verdade é esta: o Estado paga o ensino, investe em nós, e depois empurra-nos para fora. Para países que nunca gastaram um tostão connosco. Faz sentido? Claro que não. Mas, isso são outras conversas que prefiro evitar.

    Aquelas ruas e paisagens podem parecer caricatas à primeira vista, mas quando se começa a explorar o país, tudo é igual. Socorro!!!

    A casa da primeira cena é tipicamente inglesa: pequena, compartimentada. No rés do chão, uma cozinha minúscula (também, para quê mais? comem pão de forma e batatas fritas), uma sala de estar e jantar (muitos nem têm mesa, comem no sofá, como os primos americanos) e um mini WC. No quintal, um jardim com cerca de madeira. No andar de cima, três quartos e uma casa de banho.

    Já disse que não gostei de viver na Ilha? Não gostei. Adaptei-me. Mas não gostei. Tudo o que aparece nestes episódios é mesmo assim — ou pior. Aqueles tons azuis da esquadra repetem-se em todos os serviços públicos. Aquelas portas, aquelas posturas. Aquela diversidade que os ingleses odeiam e que se chama, muito simplesmente, xenofobia. Aqueles miúdos, aqueles palavrões, aqueles uniformes.

    Outras curiosidades: é comum ver bêbados de manhã. Sobretudo homens, perdidos, que ainda não encontraram o caminho de casa. Muitos sem-abrigo, muitos deles jovens com incapacidades causadas por guerras que não eram deles, pedem esmola à porta dos supermercados. Também é comum ver sangue no chão — restos de desacatos da noite anterior. Na cidade onde vivi, havia, em média, um homicídio por fim de semana. Na segunda-feira lá estávamos nós a passar pelo local onde alguém morreu.

    Nunca saí à noite como em Portugal. O meu raciocínio era simples: se estão bêbados de manhã, como estarão à noite? Não havia sentimento de segurança. O último homem que vi bêbado de manhã foi durante a pandemia, sentado num banco no parque ao lado de casa, garrafa na mão, a falar com o álcool. Parecia polaco. Vivem muitos polacos na Inglaterra. E adivinhem? Os ingleses também não gostam deles. Quando votaram no Brexit, muitos acreditavam que iam pôr todos os estrangeiros num barco e mandá-los embora.

    Oops.

    Fonte:

    Adolescence. Minissérie britânica de drama criminal/psicológico, criação de Jack Thorne e Stephen Graham; realização de Philip Barantini. Reino Unido: Netflix, 13 março 2025.

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