Olhar para dentro
Começo por olhar para dentro, que é sempre o lugar certo para começar. Já sofri do mal da ingratidão várias vezes, não vou fingir que é só um problema dos outros. Gratidão e ingratidão são escolhas diárias, muitas vezes inconscientes. Por isso, é preciso parar para pensar e refletir sobre o tema.
A arrogância da juventude
Há uma frase de um filme de animação — penso que foi Rio — que ficou comigo: “a arrogância da juventude”. Quando somos novos, por mais ridículo que pareça agora, achamos que sabemos tudo: estamos na escola, conhecemos as últimas tecnologias, o futuro vai ser grandioso, somos o máximo. Depois, a vida mostra o contrário. Quanto mais vivemos, mais percebemos que sabemos pouco e que aquela altivez juvenil era pura arrogância. Achávamos que sabíamos mais do que os pais, os professores, toda a gente.
A ilusão do merecimento
Não sei em que planeta vivem alguns que não passam por esta fase de humildade forçada pelas circunstâncias da vida. Pessoas que acham que o mundo lhes deve tudo e que os que as rodeiam lhes devem ainda mais. Julgam-se perfeitas, por ilusão ou desilusão consigo mesmas.
Querem tudo sem esforço, maldizem quem trabalha. Querem enriquecer num golpe de sorte. Acham que um único feito lhes garante alguma coisa — mas nesta vida não há garantias, só incertezas. Não sabem fazer, mas nunca pedem ajuda a quem sabe.
A ingratidão como sintoma
“A falta de gratidão nasce da imaturidade emocional e da incapacidade de cuidar do outro.” — Erich Fromm
Por isso, ingratidão é mais do que falta de educação. É sinal de que falta responsabilidade e compromisso — seja numa amizade, num amor ou numa relação profissional.
“O amor exige esforço consciente; sem isso, transforma-se em vazio e ingratidão.” — Erich Fromm
E se não conseguimos assumir isso, o ciclo repete-se, e a ingratidão volta sempre.
Reflexão e Encorajamento
Erich Fromm lembra-nos que o amor e o reconhecimento são escolhas ativas, não sentimentos passivos. Se queremos evitar a ingratidão, precisamos cultivar maturidade emocional e assumir a responsabilidade pelo cuidado com o outro.
Isso exige esforço diário, honestidade consigo próprio e coragem para pedir ajuda quando falta saber. O caminho não é fácil, mas é o único que constrói relações verdadeiras e duradouras.
Não esperes gratidão dos outros antes de te comprometeres contigo mesmo. Trabalha para seres uma pessoa que oferece respeito, cuidado e presença real. Só assim a ingratidão perde força e a confiança cresce.
Fonte:
Fromm, Erich. A Arte de Amar. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
