Acabo de ser marcada — outra vez — como a má da fita. E estou estupefata.
Se não tivesse alguma segurança interior, isto bastaria para me deixar completamente confusa.
Mas eu sei quem sou. E sei bem o que se passa cá dentro. Em mim não mora vilania. Não sou perfeita — longe disso — mas nenhuma intenção vil me habita.
O que me incomoda é que este parece ser um título que me foi colado à testa sem aviso. Dizem, por exemplo, que a minha mãe tem medo de mim. E de facto, várias vezes, depois de ter regressado à casa paterna após o divórcio, dei por mim em lágrimas a dizer-lhe:
“Eu não sou um monstro.”
Mas parece que a fama pegou.
Agora é um parente distante, daqueles que gosta de lembrar que temos “o mesmo sangue”, a acusar-me de espalhar mentiras. Mas será mesmo assim? Ou será antes uma projeção das suas frustrações, depois dessa pessoa ter sido apanhada em situações dúbias, achando que sairia impune?
É a revolta que se vira para mim?
Culpo a minha personalidade esquiva. Mas hoje quero ser justa comigo mesma: eu não sou culpada pelas ações dos outros. Eu sei quem sou. E a única coisa de que me esquivo é de encontros sociais que sei, à partida, que não vão ser confortáveis para mim.
Eu aceito-me como sou. Compreendo-me. E sim — amo-me.
A Minha Luta Invisível
Poucos sabem o que é viver com traços de Perturbação da Personalidade Evitante.
Segundo a definição clínica, trata-se de um padrão duradouro de sentimentos de inadequação, hipersensibilidade à rejeição e uma tendência persistente a evitar interações sociais. A pessoa interpreta tudo de forma excessivamente vigilante. Cada expressão, cada gesto, cada silêncio — tudo parece uma crítica ou uma ameaça.
Mas o mais difícil não é o evitamento em si.
O mais difícil é viver mal interpretada.
Expressões de receio, tensão ou ansiedade podem ser lidas como arrogância, frieza, desinteresse ou conflito. Quando na verdade, o que está ali é puro desconforto e medo de ser magoada.
E é aqui que entra algo que li do Gabor Maté:
“Não é a intensidade da dor que nos traumatiza, mas a ausência de alguém que nos ajude a lidar com ela.”
Não é o desconforto social que me magoa mais. É o facto de, tantas vezes, não haver ninguém disposto a tentar compreender. É ser julgada por evitar, por não aparecer, por não sorrir como se nada me custasse.
O problema não é só a dor — é o eco dela no vazio.
Ao longo da vida fui tentando perceber-me. Aprender o meu padrão. Tentar explicar-me aos outros. E com coragem, lá fui saindo do tal “casulo” que tanto gostam de invocar sem perceberem o que há dentro.
E mesmo quando falo, mesmo quando explico, mesmo quando abro o peito para mostrar: “Eu não sou um monstro” — ainda assim, vem a etiqueta. A de fria, distante, ingrata, má.
Pois fica dito:
Não sou má.
Sou sensível.
Sou cautelosa.
Sou marcada por histórias que me ensinaram a esconder-me.
E mesmo assim, continuo a tentar ser verdadeira — comigo e com os outros.
Se isso assusta, paciência.
Fonte:
Maté, Gabor. O Mito da Normalidade: Trauma, Doença e Cura numa Cultura Tóxica. Lisboa: Lua de Papel, 2023.
