Reflexões sobre o julgamento alheio e a ideia de mudança
“Precisas de mudar muito.”
Ouvi isto ontem da boca de uma pessoa que não me conhece. Nunca a deixei entrar porque cedo percebi traços de carácter que chocam com os meus valores.
A ironia? É mais nova do que eu.
Quando ela nasceu, eu já sabia ler e escrever.
Não é a primeira vez que o meu nome aparece ao lado da palavra “mudança”, e isso incomoda-me. Não por medo de mudar — mas pelo que isso diz sobre os olhos de quem vê. Uma vez, alguém disse à minha mãe:
“Ela mudou muito.”
Como se fosse elogio.
A sério? Quando? Como?
As pessoas julgam de fora e falam como se soubessem o que se passa cá dentro.
O que esta última pessoa tem em comum com aquela? Também não a deixei entrar.
Já foi há muito tempo, mas lembro-me de não gostar da maneira como me olhava. E logo vesti a minha armadura.
Talvez isso seja o que incomoda. O facto de eu pôr limites. O facto de não me deixar moldar por quem não me respeita.
Como alguém que trabalha e estuda desenvolvimento pessoal, tenho de confessar que estas frases magoam. Não por serem verdadeiras, mas porque batem numa ferida antiga: a sensação de não ser compreendida.
Mas, como diz o ditado popular:
“As ações ficam com quem as pratica.”
E as palavras, também. Revelam mais sobre quem as diz do que sobre quem as ouve.
Mesmo assim, não deixo de me perguntar:
O que é que há em mim que incomoda tanto estas pessoas?
A mudança que vale a pena não nasce da crítica
Erich Fromm tem uma frase que encaixa nisto como uma luva.
“A principal tarefa do ser humano é nascer de si mesmo.”
A mudança verdadeira não se faz ao sabor da crítica. Não se impõe.
Não acontece porque alguém disse que “precisas”.
A mudança só vale a pena quando nasce de dentro. Quando vem de um lugar de verdade, não de vergonha.
E, honestamente, eu já fiz esse trabalho. Já nasci de mim. E continuo a nascer, todos os dias.
Não sou um projeto dos outros.
Não sou um campo aberto para quem quiser plantar julgamento.
Não preciso de aprovação.
O que preciso é de continuar a ser fiel àquilo que sei que sou.
Fonte:
Fromm, Erich. A Arte de Amar. Tradução de Milton Amado. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
