Sofro de lucidez num mundo de loucos — e não gosto nada.
Queria ser louca, juro que queria.
Vestiam-me num casaco branco, daqueles que prendem os braços, levavam-me para um sítio qualquer e deixavam-me quieta, amarrada a uma cama. Que descanso.
Abrir-me-iam a cabeça, viam o que está lá dentro e, com sorte, arrumavam aquilo tudo como quem organiza uma gaveta.
Mas ninguém me leva a sério.
Ninguém.
Lucidez: ver demais?
Segundo a Infopédia:
Lucidez é a qualidade de lúcido; clareza de espírito; capacidade de compreender e julgar com discernimento.
Definição:
Ser lúcido é ter uma perceção clara da realidade interna e externa, com capacidade de análise, sem distorções relevantes causadas por confusão emocional, negação ou ilusão.
Agora, na minha pele:
Ser lúcida é ver o que está à frente sem filtros.
É apanhar intenções, padrões e incoerências — mesmo quando preferia não dar por nada.
Na psicologia, isto aproxima-se da chamada “consciência clara”: observar pensamentos e emoções sem nevoeiro, sem fuga.
E é aqui que começa o problema.
Ver não alivia. Ver pesa.
Clareza de espírito: quando tudo se vê, mas nada se acalma
Definição:
Clareza de espírito é um estado mental organizado, em que pensamento, emoção e perceção não andam aos empurrões.
Na prática, para mim, isto traduz-se em:
- pensar com ordem
- sentir sem me desintegrar (ou tentar)
- distinguir o que é meu do que vem de fora
Isto liga-se à mentalização: perceber estados mentais — meus e dos outros.
Só que há um detalhe que não vem nos manuais:
quando vejo com clareza, também sinto com a mesma nitidez.
E isso não traz paz.
Discernimento: não andar às cegas
Definição:
Julgar com discernimento é avaliar com critério, reflexão e alguma distância emocional, evitando decisões impulsivas.
Na prática:
- vejo
- penso
- sinto
- decido
Não ando “perdida”.
Mas também não descanso.
O cansaço de ver demais
O que descrevo não é loucura. Ou talvez seja o tipo de loucura socialmente funcional.
É excesso de consciência:
- penso demais
- analiso demais
- sinto demais
Gabor Maté descreve algo próximo quando fala de hipersensibilidade: um sistema nervoso em alerta capta tudo.
E quando tudo entra:
- nada passa ao lado
- nada é leve
- nada se resolve sozinho
Resultado?
Não desligo.
Não simplifico.
Não descanso.
Onde falhou a segurança?
Aqui entra Donald Winnicott.
Ele fala do holding environment: o ambiente emocional que sustenta.
Quando isso falha:
- emoções não são acolhidas
- não há validação
- não há segurança
E acontece isto:
não aprendo a organizar o que sinto.
Aprendo a sobreviver ao que sinto.
E hoje vejo o padrão, sem anestesia:
como não fui contida, tento conter tudo sozinha.
Arrumar.
Desarrumar.
Controlar.
Pensar.
Sem pausa.
Eu não jogo — e pago o preço
O meu texto não fala de loucura. Ou fala, mas não da forma habitual.
Fala de ver demais.
Erich Fromm ajuda-me a encaixar isto: numa sociedade pouco consciente, quem vê com clareza fica deslocado. Já fui náufraga agora sou deslocada…
Não porque estou errada.
Mas porque não entro no jogo.
A minha lucidez não é leve.
É pesada. Tão pesada que me esmaga.
Eu sinto:
- lucidez sem alívio
- consciência sem acolhimento — afasto e fico cada vez mais só
- pensamento sem descanso — escrevo para tentar esvaziar
E mesmo assim… não chega.
E agora?
Isto não desaparece por si.
E não, ninguém vem arrumar isto por mim. Ora bolas.
Ando cansada de fugir:
de mim, dos outros, dos pesadelos.
Escadas, elevadores, corredores — sempre em movimento, nunca em chegada.
Então a pergunta fica:
como é que eu vivo com isto sem me perder?
Regular sem me apagar
Não é eliminar a lucidez.
É não ser engolida por ela.
Aqui deixo de falar bonito e falo claro.
Não sei fazer isto sozinha.
Já tentei. Não resultou.
Há coisas que não se resolvem a pensar mais.
Resolvem-se com ajuda — mesmo quando custa admitir.
E sim, é por isso que existem profissionais.
Não para pensarem por mim.
Mas para me ajudarem a não me afogar no que penso.
Sem romantizar
A minha lucidez não me parece um dom.
Parece uma carga. Daquelas que não se pousam.
Mas talvez o problema não seja ver demais.
Talvez seja não saber o que fazer com o que vejo.
Volto à consulta de psiquiatria no próximo mês.
Porque vivo dentro de uma cabeça que não se cala.
Fontes
- Brown, K. W., & Ryan, R. M. (2003). The benefits of being present: Mindfulness and its role in psychological well-being. Journal of Personality and Social Psychology.
- Kabat-Zinn, J. (1994). Wherever You Go, There You Are.
- Fonagy, P., Gergely, G., Jurist, E., & Target, M. (2002). Affect Regulation, Mentalization, and the Development of the Self.
- Bateman, A., & Fonagy, P. (2016). Mentalization-Based Treatment for Personality Disorders.
- Maté, G. (2022). The Myth of Normal: Trauma, Illness, and Healing in a Toxic Culture.
- Aron, E. (1997). The Highly Sensitive Person.
- Winnicott, D. W. (1960). The Theory of the Parent-Infant Relationship.
- Winnicott, D. W. (1965). The Maturational Processes and the Facilitating Environment.
- Porges, S. (2011). The Polyvagal Theory.
- Infopédia – Dicionários Porto Editora
