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Ensaio sobre a lucidez

    Mulher negra sentada sozinha num banco, em foco, num espaço amplo e minimalista. Ao fundo, um grupo de pessoas desfocado convive e ri. Entre ela e o grupo há uma separação subtil sugerida por uma linha de luz azul. A expressão da mulher é calma, mas distante, transmitindo presença sem pertença.

    Sofro de lucidez num mundo de loucos — e não gosto nada.
    Queria ser louca, juro que queria.
    Vestiam-me num casaco branco, daqueles que prendem os braços, levavam-me para um sítio qualquer e deixavam-me quieta, amarrada a uma cama. Que descanso.
    Abrir-me-iam a cabeça, viam o que está lá dentro e, com sorte, arrumavam aquilo tudo como quem organiza uma gaveta.
    Mas ninguém me leva a sério.
    Ninguém.


    Lucidez: ver demais?

    Segundo a Infopédia:
    Lucidez é a qualidade de lúcido; clareza de espírito; capacidade de compreender e julgar com discernimento.

    Definição:
    Ser lúcido é ter uma perceção clara da realidade interna e externa, com capacidade de análise, sem distorções relevantes causadas por confusão emocional, negação ou ilusão.

    Agora, na minha pele:
    Ser lúcida é ver o que está à frente sem filtros.
    É apanhar intenções, padrões e incoerências — mesmo quando preferia não dar por nada.

    Na psicologia, isto aproxima-se da chamada “consciência clara”: observar pensamentos e emoções sem nevoeiro, sem fuga.

    E é aqui que começa o problema.
    Ver não alivia. Ver pesa.


    Clareza de espírito: quando tudo se vê, mas nada se acalma

    Definição:
    Clareza de espírito é um estado mental organizado, em que pensamento, emoção e perceção não andam aos empurrões.

    Na prática, para mim, isto traduz-se em:

    • pensar com ordem
    • sentir sem me desintegrar (ou tentar)
    • distinguir o que é meu do que vem de fora

    Isto liga-se à mentalização: perceber estados mentais — meus e dos outros.

    Só que há um detalhe que não vem nos manuais:
    quando vejo com clareza, também sinto com a mesma nitidez.
    E isso não traz paz.


    Discernimento: não andar às cegas

    Definição:
    Julgar com discernimento é avaliar com critério, reflexão e alguma distância emocional, evitando decisões impulsivas.

    Na prática:

    • vejo
    • penso
    • sinto
    • decido

    Não ando “perdida”.
    Mas também não descanso.


    O cansaço de ver demais

    O que descrevo não é loucura. Ou talvez seja o tipo de loucura socialmente funcional.

    É excesso de consciência:

    • penso demais
    • analiso demais
    • sinto demais

    Gabor Maté descreve algo próximo quando fala de hipersensibilidade: um sistema nervoso em alerta capta tudo.

    E quando tudo entra:

    • nada passa ao lado
    • nada é leve
    • nada se resolve sozinho

    Resultado?
    Não desligo.
    Não simplifico.
    Não descanso.


    Onde falhou a segurança?

    Aqui entra Donald Winnicott.

    Ele fala do holding environment: o ambiente emocional que sustenta.

    Quando isso falha:

    • emoções não são acolhidas
    • não há validação
    • não há segurança

    E acontece isto:
    não aprendo a organizar o que sinto.
    Aprendo a sobreviver ao que sinto.

    E hoje vejo o padrão, sem anestesia:
    como não fui contida, tento conter tudo sozinha.

    Arrumar.
    Desarrumar.
    Controlar.
    Pensar.


    Sem pausa.


    Eu não jogo — e pago o preço

    O meu texto não fala de loucura. Ou fala, mas não da forma habitual.
    Fala de ver demais.

    Erich Fromm ajuda-me a encaixar isto: numa sociedade pouco consciente, quem vê com clareza fica deslocado. Já fui náufraga agora sou deslocada…

    Não porque estou errada.
    Mas porque não entro no jogo.

    A minha lucidez não é leve.
    É pesada. Tão pesada que me esmaga.

    Eu sinto:

    • lucidez sem alívio
    • consciência sem acolhimento — afasto e fico cada vez mais só
    • pensamento sem descanso — escrevo para tentar esvaziar

    E mesmo assim… não chega.


    E agora?

    Isto não desaparece por si.
    E não, ninguém vem arrumar isto por mim. Ora bolas.

    Ando cansada de fugir:
    de mim, dos outros, dos pesadelos.
    Escadas, elevadores, corredores — sempre em movimento, nunca em chegada.

    Então a pergunta fica:
    como é que eu vivo com isto sem me perder?


    Regular sem me apagar

    Não é eliminar a lucidez.
    É não ser engolida por ela.

    Aqui deixo de falar bonito e falo claro.

    Não sei fazer isto sozinha.
    Já tentei. Não resultou.

    Há coisas que não se resolvem a pensar mais.
    Resolvem-se com ajuda — mesmo quando custa admitir.

    E sim, é por isso que existem profissionais.
    Não para pensarem por mim.
    Mas para me ajudarem a não me afogar no que penso.


    Sem romantizar

    A minha lucidez não me parece um dom.
    Parece uma carga. Daquelas que não se pousam.

    Mas talvez o problema não seja ver demais.
    Talvez seja não saber o que fazer com o que vejo.

    Volto à consulta de psiquiatria no próximo mês.
    Porque vivo dentro de uma cabeça que não se cala.


    Fontes

    • Brown, K. W., & Ryan, R. M. (2003). The benefits of being present: Mindfulness and its role in psychological well-being. Journal of Personality and Social Psychology.
    • Kabat-Zinn, J. (1994). Wherever You Go, There You Are.
    • Fonagy, P., Gergely, G., Jurist, E., & Target, M. (2002). Affect Regulation, Mentalization, and the Development of the Self.
    • Bateman, A., & Fonagy, P. (2016). Mentalization-Based Treatment for Personality Disorders.
    • Maté, G. (2022). The Myth of Normal: Trauma, Illness, and Healing in a Toxic Culture.
    • Aron, E. (1997). The Highly Sensitive Person.
    • Winnicott, D. W. (1960). The Theory of the Parent-Infant Relationship.
    • Winnicott, D. W. (1965). The Maturational Processes and the Facilitating Environment.
    • Porges, S. (2011). The Polyvagal Theory.
    • Infopédia – Dicionários Porto Editora

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