quando o encontro não é encontro
O meu último date fugiu de mim a correr e deixou-me num impasse: não sei se havia de rir ou chorar. Spoiler: chorei.
Foi como um dia de praia em bandeira vermelha: os sinais de perigo estavam lá, depois suavizaram para amarelo, mas a verde nunca foi hasteada. Ele procurava a Rebeca e eu, Raquel, devia ter percebido… mas não. Telefonava por tudo e por nada, sempre a dizer que “me queria conhecer”. Noutras palavras: love bombing. Na altura não desconfiei, porque os elogios eram comedidos e alimentavam o meu ego.
Durante o date não largou o telemóvel. Claro que não gostei, mas calei-me porque poderiam ser os filhos. Juro que pensei que o encontro estava a correr bem, até que comecei a notar alguma agitação no final do almoço. O desfecho foi uma pressa absurda de me largar no meu carro, um adeus em velocidade máxima e, literalmente, a correr para o carro dele. Nunca tinha visto ou vivido nada assim. Mais um tesourinho deprimente para a caixinha das memórias.
Até já inventei um universo paralelo em que ele foi ter com outra pessoa numa cidade que ficava a caminho do regresso a casa. Tudo pode ter acontecido, porque o que faltou foi verdade, transparência e integridade. Como diz Susan Anderson: “Quando te sentes abandonado, a tua mente cria histórias que podem ser piores que a realidade.”
E com isto chego à conclusão que a canção da minha vida deveria ser esta:
I Should Have Known Better… Ai ai ai ai ai ai ai! É isso mesmo!
E para não me armar em esperta, tudo acabou com o belo do ghosting.
bell hooks escreveu: “Love is an action, never simply a feeling.”
Quando alguém te ignora depois de te envolver emocionalmente, que acção é essa? Isso é amor?
Segundo bell hooks, a resposta é não. Ignorar alguém depois de a atrair não é amor — é negligência e falta de responsabilidade. O amor, como ela explica, não é apenas sentir, é escolher agir com cuidado, respeito e verdade.
Enquanto eles brincam, eu cresço. Aprendo, como escreve Gabor Maté, que crescer significa enfrentar a minha vulnerabilidade e lidar com a minha dor, sabendo que não existe mapa, que às vezes falho e que, ainda assim, continuo a tentar.
Referências
- Susan Anderson – The Journey from Abandonment to Healing. HarperCollins, 2000. “Quando te sentes abandonado, a tua mente cria histórias que podem ser piores que a realidade.”
- bell hooks – All About Love: New Visions. Harper Perennial, 2000. “Love is an action, never simply a feeling.”
- Gabor Maté – When the Body Says No: The Cost of Hidden Stress. Vintage Canada, 2003. Crescer exige vulnerabilidade.
