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Gatilhos Emocionais, Bimby e Dates

    folar numa mesa

    A venda

    Este fim de semana vendi a minha Bimby. Era algo que já estava decidido há cerca de um ano. Durante esse tempo, ficou ali parada, num canto que agora está vazio. E talvez exista também um novo vazio no meu coração, para se juntar à festa. Pois.

    Quando vi a mensagem no OLX, pareceu-me só mais uma entre tantas que já tinha recebido: “Qual é o preço?”, “Ainda está disponível?”, “Por que está a vender?”. Mas desta vez, o interesse do comprador continuou. Marcámos dia e hora. Nada de especial. Até receber o telefonema a dizer que já tinham chegado. Foi aí que a ficha caiu. E comecei a ter ataques de pânico.

    Nos dias anteriores, já tinha pedido ajuda à minha irmã para ir comigo, para me apoiar na transação. Afinal, o meu cérebro já sabia que não era boa ideia eu fazer isto sozinha. E depois de viver aquela descarga emocional, percebi que não devia mesmo ter sido eu a lidar com isto. Devia ter pedido a alguém que o fizesse por mim. Mas não há mais ninguém. Nunca há. E lá fui eu outra vez, engolida pelo tornado emocional: dor, choro, tristeza, mal-estar, falta de apetite, quebra de tensão, solidão.

    A história por trás da máquina

    Hoje, mais composta, escrevo este texto e penso: ganhei mais esta batalha. Mas o que eu queria mesmo era que a guerra acabasse.

    Desde a pré-adolescência que comecei a colecionar livros e revistas de culinária. Se uma revista tinha uma imagem bonita de um doce, era quase certo que vinha comigo para casa. Quando a minha mãe me deu a Bimby, ficou claro que ia colecionar também as revistas da Bimby. Os livros quis colecionar, mas como sabia que já tinha dezenas de receitas em lista de espera e o preço dos livros não ajudava, nunca cheguei a comprar. Fiquei só com o livro original, aquele que vinha com a máquina alemã. Esse livro ainda guarda as anotações das receitas testadas e aprovadas, tal como as revistas. A favorita era o frango de fricassé. E doces… ai os doces! Foi com eles que nos despedimos ainda em plena pandemia, com tranças e folares — o meu bolo preferido das festas.

    Este ano lembraram-se de aumentar o preço dos ovos, mas a minha mãe salvou o dia com os folares dela, com uma pitada de erva-doce q.b.. Uma delícia. Mas souberam a pouco…

    E agora até me perdi. É mais simpático falar de folares. Não sei bem porquê.

    O impacto nos relacionamentos

    A venda da Bimby foi um gatilho emocional e arrastou tudo com ela. Inclusive o meu date atual, que não soube estar à altura do momento. Falhou no essencial: presença, escuta e empatia. E quando alguém falha aí, deixa de fazer sentido ocupar espaço na nossa vida. A partir desse momento, só consegui ver os contras.

    Reflexão final

    Nem sempre os outros percebem o que mexe connosco. Às vezes, nem nós percebemos. Uma venda simples pode tocar em memórias profundas, que estavam ali quietas, à espera de um empurrão para explodirem. E quando isso acontece, vem tudo atrás — até as dúvidas sobre quem nos acompanha.

    Não há vergonha nenhuma em reconhecer que um eletrodoméstico pode carregar histórias. E muito menos em admitir que precisamos de ajuda. Mesmo quando não temos ninguém, escrever pode ser um bom lugar para pousar a dor.

    Se estás a passar por algo parecido, lembra-te disto: sentir não é fraqueza. É sinal de que estás vivo.

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