Amanhã a Lia celebra mais uma volta ao sol.
Gosto sempre desta expressão moderna — soa leve, quase poética. Mas, se pensarmos bem, andar ali no universo às voltas do sol deve ser um exercício um tanto repetitivo. E quente. Muito quente.
Ao menos a vitamina D está garantida. E o bronze também.
A infeliz não é feliz.
Também, convenhamos: felicidade absoluta não existe. Não neste planeta. Não nesta vida dita “humana”. Há momentos, sim. Instantes. Mas a base… raramente é essa.
Calhou-lhe uma cruz pesada.
E, curiosamente, quando tudo já está mal, há sempre margem para piorar.
Tenho pena dela.
Da desgraçada.
Não é pessoa de fazer mal a ninguém. Daquelas que pede desculpa quando são os outros que falham. E mesmo assim… leva. Constantemente.
Quando decidiu separar-se do marido, deu-se o habitual espetáculo: gente a desaparecer mais rápido do que a dignidade em discussões de família. Desde a terapeuta até às colegas de trabalho — que, afinal, nunca foram amigas.
Surpresa nenhuma.
Um dia pediu para falar comigo.
E eu ouvi.
Escutei tudo. Os cenários que já tinha montado naquela cabeça cansada. Uma cabeça mergulhada em confusão — dor, tristeza, desordem, trauma, tudo misturado. A situação não era pensamento organizado; era um estado atmosférico instável, quase um desastre emocional.
A vida dela é um caos com C grande.
Mas uma pessoa só pode ajudar até certo ponto, não é?
E também, sejamos honestos: há por aí vidas em descalabro suficiente para encher prateleiras inteiras. Vivemos tempos curiosos — guerras inventadas por meia dúzia, pagas por milhões.
A Lia pensa e fala muito disso. Diz que nunca sentiu tanta escassez como agora.
Na Páscoa foi ao Continente.
Os folares não tinham ovos.
Folares sem ovos.
Isto merece um minuto de silêncio.
Um folar sem pelo menos um ovo não é um folar. É outra coisa qualquer. Um híbrido pobre. Devia ter outro nome. Talvez “simulação de tradição em tempos de crise”.
Mas pronto, distraí-me.
Voltando à pobre alma.
Na separação, dizia ela, não havia boas alternativas.
Uma era ficar num relacionamento que lhe sugava a energia — e qualquer resto de vontade de viver.
A outra era regressar ao ponto de partida. Regredir. Retornar ao início.
E ninguém gosta de recuar.
Ninguém gosta de ir para trás.
Um dia confessou-me isso mesmo: sentia-se presa num jogo. Tipo Monopólio, mas sem saída. Andava sem sair do mesmo sítio, em ciclo, a percorrer sempre as mesmas ruas internas. Um jogo viciado.
E ela sabia.
Esse estado era uma barafunda. Um verdadeiro pandemonio. Sempre a mesma sensação: o buraco negro. A puxá-la. A engoli-la devagar. Um abismo persistente, uma força que não larga.
Se fosse um buraco branco ainda vá lá.
Mas não. Preto.
A sorte também não mora ali.
A pobre alma está só no mundo.
A família morreu no mar, num naufrágio. Uma tragédia inteira. Dessas que não deixam margem para reconstrução simples. Foi a única sobrevivente.
Há coisas que não se ultrapassam.
Apenas se carregam.
E digo isto sem ironia:
Não sei como é que ela consegue.
Eu não conseguia. Lia.
