Fui votar. E fui chamada de menina. Várias vezes.
A primeira reação foi o riso. O homem da mesa de voto disse “menina” com tanta naturalidade que quase me fez duvidar da minha idade. Sorri. Mas depois pensei:
coitado, vai assustar-se quando vir a minha data de nascimento.
Pensei também na pessoa conhecida que estava na mesma mesa — por um instante temi que lhe chamasse a atenção, e isso seria desconfortável. Mas estava demasiado ocupada a tentar encontrar o número certo no caderno errado.
Sim, pareço mais nova. Mas não exageremos.
Ainda há quem me dê vinte e poucos. Trinta, vá.
E eu penso: não consegues ver os cabelos brancos? Estão aqui, visíveis e sem vergonha.
Já fazem parte do meu rosto e da minha história.
Sei que não houve má intenção. Foi uma tentativa de simpatia. Mas isso não o torna apropriado.
“Menina” não é inocente.
É uma palavra carregada.
Pode parecer um elogio — e até é usada como tal. Mas num contexto institucional, não é neutra.
É condescendente. É paternalista. É redutora.
Naquela mesa, eu era cidadã. Eleitora. Contribuinte. Parte ativa da democracia.
E mesmo assim, fui reduzida a “menina”.
A linguagem não é neutra. E nunca foi.
A aparência pode enganar, mas o respeito não devia depender disso.
Mesmo que pareça mais nova, não sou.
Mesmo que a intenção não tenha sido má, o impacto existe.
Mesmo que a palavra seja “fofinha”, ela vem de um lugar de desigualdade.
A autora bell hooks escreveu:
“A linguagem é também um lugar de luta.” (Teaching to Transgress, 1994)
E é mesmo.
Porque quando chamam “menina” a uma mulher adulta, o que dizem — sem dizer — é que ainda não ocupamos o mesmo espaço. Ainda não somos vistas como inteiras. Como cidadãs no pleno.
Numa mesa de voto, exige-se neutralidade.
Teria bastado ler o meu nome. Ou usar “senhora”.
Porque se eu fosse mesmo menina, nem podia votar.
Chamar uma mulher adulta de “menina” num espaço cívico é uma infantilização.
É um reflexo de sexismo quotidiano, tão enraizado que nem se nota.
Mas nota-se. E, por essa razão deixo este apontamento:
a linguagem importa.
E “menina”, naquele contexto, não foi elogio. Foi ruído.
Reflexão final
Não me senti atacada. Não fiz uma cena.
Mas também não deixo passar em branco.
Porque se queremos uma democracia mais igual, mais justa e mais consciente, então temos de começar pelas palavras.
E pela forma como olhamos — e falamos — com e para as mulheres.
