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Meu fado, meu fardo

    Mulher sozinha à beira-mar numa noite chuvosa, com o mar escuro atrás e reflexos azulados na areia molhada. Ao longe, uma luz dourada desfocada sugere uma festa distante. A imagem transmite solidão, dignidade e a sensação de não ser vista apesar da proximidade dos outros.

    Um fado dentro de mim

    Trago um fado no meu canto
    Canto a noite, até ser dia
    Do meu povo, trago pranto
    No meu canto, a minha vida.

    Tenho saudades de mim, mas também da Mariza que cantava assim. Hoje esta é a música da minha vida ou ficaria melhor se dissesse deste dia?

    Meu fado, meu fado
    Meu fado, meu fado


    De mim só me falto eu
    Senhora da minha vida.

    A noite chuvosa

    No outro dia precisei de sair de casa para ficar só. O meu espaço físico não foi respeitado e tive de sair, fui ouvir o mar e chorar à lua. Foi numa noite chuvosa, contudo as gotas de chuva esperaram que as minhas parassem para depois brilharem sozinhas no silêncio da noite.

    Quem me dera que a minha vida, o meu fado e o meu fardo pudessem ser tão catitas como estas palavras que escrevo para acalmar a dor, perceber os sentimentos e decifrar as emoções.

    Meu fado, meu fardo
    Meu fardo, meu fardo.

    O valor de um leitão

    Num dia destes, pessoas próximas colocaram comer leitão à frente do meu bem-estar emocional. Como devo valer tão pouco aos olhos dessas pessoas? Perguntei ao Gemini: o preço de um leitão assado varia entre 160 € e 185 €. Pronto, aqui está a soma do meu valor.

    Não, Raquel, não é a comida — é estar com as pessoas e a festa.
    E eu?! Sim, é a festa, sim, são as pessoas, sim, é o convívio, sim, é a comida. Nunca eu.

    Meu fardo, meu fardo
    Meu fardo, meu fardo.

    A ferida de saber que o leitão, a festa e a tradição valem mais do que a minha dor.

    Em O Medo à Liberdade e A Arte de Amar, Erich Fromm fala do vazio moderno: quando as pessoas substituem o cuidado genuíno por hábitos sociais ou rituais (como festas, comida, tradições). Fromm descreve como muitos preferem o conforto do grupo à responsabilidade de realmente ver o outro. Ele chama a isso amor de consumo — em que se consome a companhia, a festa, a comida, mas não se nutre a relação autêntica com o indivíduo.

    A pergunta que não me larga

    Porque sou tão difícil de ver?

    Se não me veem, é porque não amam com atenção. O amor que não me vê não é amor, é conveniência.
    Sou difícil de ver porque é mais cômodo consumir o ritual — o leitão, a festa, a tradição — do que assumir a responsabilidade de olhar para o que sinto.
    Isto é: não sou difícil de ver. Difícil é para os outros suportarem o que veriam se me olhassem de verdade.

    Meu fado, meu fado
    Meu fado, meu fado…

    Fontes

    • Erich Fromm — O Medo à Liberdade; A Arte de Amar
    • bell hooks — All About Love
    • Mariza — Meu Fado Meu; a letra é da autoria do compositor e cantor português Paulo de Carvalho. A intérprete mais conhecida e que popularizou o fado é a fadista Mariza.

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