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Não vos vou dar música… vou falar de trauma

    Mulher adulta em pé num espaço natural ao amanhecer, com uma mão sobre o peito, olhando em frente com expressão serena e firme. A luz suave ilumina parcialmente o rosto, transmitindo consciência interior, autenticidade e ligação entre corpo e emoção.

    Estava para vos “dar música”, mas depois pensei melhor e resolvi falar sobre trauma, a propósito de um documentário que vi há umas semanas: A Sabedoria do Trauma.

    Trauma não é só o que aconteceu

    Gábor Maté distingue entre traumas evidentes (guerras, abusos, catástrofes) e os chamados “pequenos traumas”: aquelas situações do quotidiano em que deixamos de ser vistos ou em que nos dizem que não somos “normais” por agirmos de acordo com a nossa verdade.

    Perguntei logo: mas o que é a minha verdade, afinal? Este termo está muito em uso e, no meu ponto de vista, tem sido abusado. Quando falamos em “a minha verdade”, não nos referimos a uma verdade absoluta sobre o mundo, mas sim à nossa experiência interna real — aquilo que sentimos, pensamos e precisamos, mesmo quando isso entra em choque com as expectativas externas.

    Essas micro experiências corroem a autoestima e forçam-nos a escolher entre duas necessidades humanas básicas:

    • Apego (ser aceites pelo grupo, pela família, pela comunidade)
    • Autenticidade (sermos fiéis ao que sentimos e pensamos)

    Muitas vezes sacrificamos a autenticidade para não perder o apego. Mas, como alerta Maté, o corpo paga sempre a fatura.

    Eu, teimosa, fui logo escolher a autenticidade — “e por isso é que não há ninguém que me ature”. Foi essa Cristina que, quando entrou na escola primária, resolveu que queria ser chamada de Raquel, contrariando todo o seu pequeno mundo que lhe chamava de Cristina. Sou do tempo dos nomes compostos: Raquel Cristina é o meu!

    O corpo como radar

    Cada dor, cada aperto no peito, cada insônia é uma mensagem. “O que é que acabei de engolir em silêncio?”, perguntaria Maté. A resposta quase nunca é apenas física. É emocional, relacional, existencial. Reconhecer esses sinais é o primeiro passo para não normalizar o que me destrói por dentro.

    O caminho da cura: os 7 A’s de Maté

    Maté propõe sete pilares para recuperar saúde e equilíbrio:

    1. Aceitação – reconhecer o que sentimos.
    2. Consciência – identificar os padrões que nos adoecem.
    3. Expressão da raiva – libertar a emoção sem violência.
    4. Autonomia – assumir escolhas, por pequenas que sejam.
    5. Afeição saudável – nutrir relações que nos validem.
    6. Afirmar o valor próprio – não depender do olhar externo.
    7. Assertividade – dizer não sem culpa.

    São passos simples, mas poderosos, que nos lembram que saúde não é ausência de sintomas: é presença de verdade. Muitos destes A’s podem ser praticados através de exercícios de Mindfulness.

    Quando o corpo diz não

    Quando o meu corpo está a dizer não, é porque a minha alma está cansada de engolir silêncios. Porque, afinal, eu escolhi ser autêntica em vez de seguir o conforto da conformidade. E essa escolha, embora incômoda para quem prefere que eu fique calada, é a única que abre espaço para a cura.

    Como lembra Gábor Maté, “não é a intensidade da dor que determina se algo é traumático, mas sim a nossa incapacidade de sermos autênticos diante dela”. Ser autêntica é isso: não ceder ao que esperam de mim, mas nascer uma e outra vez naquilo que sou.

    Fontes do artigo

    • Gábor Maté, When the Body Says No: Exploring the Stress-Disease Connection (2003)
    • Gábor Maté, The Myth of Normal: Trauma, Illness, and Healing in a Toxic Culture (2022)
    • Documentário The Wisdom of Trauma (2021)

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