Quando eu própria era uma menina, foi-me dada a tarefa de ir buscar uma criança ao jardim-de-infância.
Acontece que, ao lado havia uma casa com um corvo malvado que grasnava para mim e se aproximava mais do que eu gostaria.
Eu tinha medo do corvo.
Todas as vezes que entrava naquele portão, precisava de vencer o medo para cumprir a missão que me tinham dado.
Às vezes ficava ali, no compasso de espera, a ver se algum adulto chegava para ir buscar a sua criança.
Quando isso acontecia, suspirava de alívio.
Outras vezes, as pessoas que passavam viam o meu medo e diziam:
— “Anda comigo, não tenhas medo.”
Hoje essa criança já é adulta.
Mas está de mal comigo.
E dói.
Dói tanto que o meu sono sente o peso da dor.
Só esta noite levantei-me duas vezes para ir comer — algo que nunca me tinha acontecido.
A compulsão alimentar provocada pela medicação para dormir só me acordava uma vez, até agora.
Não é, obviamente, a medicação adequada, mas é o que há.
Uma vez ouvi alguém dizer que os pais amam sempre mais e que os filhos só percebem isso mais tarde, quando também são pais.
Eu não tenho filhos, mas muitas vezes fui chamada a cuidar de crianças, e compreendo bem essa diferença na escala do amor.
Talvez por isso me pareça tão injusto o desamor que ando a receber.
Há um padrão que só há pouco tempo consegui identificar nesta relação: quando está doente, aceita-me; quando começa a melhorar, despreza-me.
Esta é a segunda vez que o reconheço na vida adulta.
É algo complexo, que ainda não compreendo totalmente, mas que magoa e entristece — sinto-me ostracizada.
No entanto, essa pessoa desconhece a minha história com o corvo.
E, sinceramente, acho que nem quer saber.
Entre o medo e o desamor
O corvo de então e a rejeição de agora têm o mesmo sabor: o medo de me aproximar e ser ferida.
Na infância, o medo tinha asas.
Agora tem rosto.
Talvez a dor venha exatamente daí — de perceber que, para alguns, o amor só existe enquanto precisam de nós.
Quando já não precisam, deixam de amar.
E é essa ausência que fere mais fundo: perceber que o amor deles nunca foi encontro, foi apenas necessidade.
O amor sob escassez
Eva Illouz fala sobre como as emoções se tornaram um espaço de poder e de negociação.
O afeto deixou de ser livre: tornou-se um recurso escasso que se distribui conforme o valor simbólico que o outro tem.
Quando alguém te aceita na fraqueza e te rejeita na força, não é amor — é gestão emocional.
É a tentativa inconsciente de controlar o outro através do reconhecimento.
O corvo continua a grasnar — noutros corpos, noutras vozes — mas a ameaça agora é diferente.
Antes, era o medo da ave que me podia ferir.
Hoje, é o medo de ser ferida por quem devia amar.
O corvo mudou de forma, mas continua a aparecer quando alguém transforma o amor em poder.
E talvez o verdadeiro ato de coragem seja este: reconhecer quando o perigo já não vem de fora, mas de dentro das relações que escolhemos manter.
Fontes
- Fromm, Erich (1956). A Arte de Amar. Lisboa: Edições 70.
- Illouz, Eva (2012). Por que o Amor Dói. Lisboa: Temas e Debates.
