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O corvo

    Duas cadeiras vazias num jardim silencioso Um jardim calmo, duas cadeiras lado a lado, uma ocupada por um corvo, a outra vazia. Luz dourada a atravessar o verde. Simboliza a relação interrompida e o lugar que o desamor deixa vazio.

    Quando eu própria era uma menina, foi-me dada a tarefa de ir buscar uma criança ao jardim-de-infância.
    Acontece que, ao lado havia uma casa com um corvo malvado que grasnava para mim e se aproximava mais do que eu gostaria.
    Eu tinha medo do corvo.
    Todas as vezes que entrava naquele portão, precisava de vencer o medo para cumprir a missão que me tinham dado.

    Às vezes ficava ali, no compasso de espera, a ver se algum adulto chegava para ir buscar a sua criança.
    Quando isso acontecia, suspirava de alívio.
    Outras vezes, as pessoas que passavam viam o meu medo e diziam:
    — “Anda comigo, não tenhas medo.”

    Hoje essa criança já é adulta.
    Mas está de mal comigo.
    E dói.

    Dói tanto que o meu sono sente o peso da dor.
    Só esta noite levantei-me duas vezes para ir comer — algo que nunca me tinha acontecido.
    A compulsão alimentar provocada pela medicação para dormir só me acordava uma vez, até agora.
    Não é, obviamente, a medicação adequada, mas é o que há.

    Uma vez ouvi alguém dizer que os pais amam sempre mais e que os filhos só percebem isso mais tarde, quando também são pais.
    Eu não tenho filhos, mas muitas vezes fui chamada a cuidar de crianças, e compreendo bem essa diferença na escala do amor.
    Talvez por isso me pareça tão injusto o desamor que ando a receber.

    Há um padrão que só há pouco tempo consegui identificar nesta relação: quando está doente, aceita-me; quando começa a melhorar, despreza-me.
    Esta é a segunda vez que o reconheço na vida adulta.
    É algo complexo, que ainda não compreendo totalmente, mas que magoa e entristece — sinto-me ostracizada.

    No entanto, essa pessoa desconhece a minha história com o corvo.
    E, sinceramente, acho que nem quer saber.

    Entre o medo e o desamor

    O corvo de então e a rejeição de agora têm o mesmo sabor: o medo de me aproximar e ser ferida.
    Na infância, o medo tinha asas.
    Agora tem rosto.

    Talvez a dor venha exatamente daí — de perceber que, para alguns, o amor só existe enquanto precisam de nós.
    Quando já não precisam, deixam de amar.
    E é essa ausência que fere mais fundo: perceber que o amor deles nunca foi encontro, foi apenas necessidade.

    O amor sob escassez

    Eva Illouz fala sobre como as emoções se tornaram um espaço de poder e de negociação.
    O afeto deixou de ser livre: tornou-se um recurso escasso que se distribui conforme o valor simbólico que o outro tem.
    Quando alguém te aceita na fraqueza e te rejeita na força, não é amor — é gestão emocional.
    É a tentativa inconsciente de controlar o outro através do reconhecimento.

    O corvo continua a grasnar — noutros corpos, noutras vozes — mas a ameaça agora é diferente.
    Antes, era o medo da ave que me podia ferir.
    Hoje, é o medo de ser ferida por quem devia amar.
    O corvo mudou de forma, mas continua a aparecer quando alguém transforma o amor em poder.

    E talvez o verdadeiro ato de coragem seja este: reconhecer quando o perigo já não vem de fora, mas de dentro das relações que escolhemos manter.

    Fontes

    • Fromm, Erich (1956). A Arte de Amar. Lisboa: Edições 70.
    • Illouz, Eva (2012). Por que o Amor Dói. Lisboa: Temas e Debates.

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