Ou a crise disfarçada de ternura
O Paco Bandeira enganou-nos a todos.
Não existe nenhuma ternura especial depois dos 40. O que existe são crises existenciais, mudanças bem visíveis no corpo e no cérebro, e a consciência desconfortável de que o auge foi ali pelos 30. Aos 40 começamos a descer — e não é devagar.
Imaginem uma pista de ski.
Alguns descem com elegância porque praticam desde crianças.
Os mais aventureiros vão de snowboard.
E depois há aqueles que, como eu, vão de sku. Sem grande técnica, mas cheios de vontade de chegar cá abaixo inteiros.
Nos últimos dois anos tenho encontrado homens que mexem comigo. Oxalá tivesse sido ao contrário. Talvez já não tivesse tempo para escrever as minhas desventuras porque andaria por aí de cabeça nas nuvens, ocupada a viver a felicidade.
No ano passado foi o meu amigo do Barreiro. O meu lado sul, de todos os rios que existem entre nós. Que coração bonito, que alma gentil. Foi quase tudo de bom — só faltou o quase. Andava perdido em assuntos familiares. Eu ainda tentei ajudar, a ver se assim poderia, enfim, caber na sua vida. Nem ajudei, nem coube.
Este ano foi um regresso ao passado em forma de encontro casual. E ele voltou a fugir. Continua a fugir.
Nas redes sociais não o deixei de seguir, mas escolhi deixar de ver as publicações para dar descanso ao meu coraçãozinho. Agora tenho a sensação de que ele fez o mesmo. Mas o raio do algoritmo é maquiavélico e esta semana mostrou-me tudo outra vez.
Não pode ser. Apesar do carinho que tenho por ele, deixou de falar comigo de forma abrupta. Isso não está bem. Deu-me ghosting depois de termos passado por um episódio de intimidade — que eu ainda por cima gostei — apesar de todos os percalços que já tinham acontecido entre nós.
Ah, e claro: o problema também é a família. Imaginem.
A bem da verdade, fui analisar a letra da música. E percebi que não fala de ternura nenhuma. Fala de crise. Uma crise disfarçada de ternura, para doer menos. Fala de nostalgia. Fala da necessidade de coragem para seguir em frente.
Moral da história: a música não é o que eu pensava. Afinal, descreve muito bem a crise dos 40 — com poesia à mistura, para enganar o ouvido. Mas como conheço esta música desde criança, sempre gostei do refrão e da melodia e nunca tinha parado para escutar o que estava mesmo ali.
Volta, Paco.
Estás perdoado.
