Skip to content
Início » Blog » O príncipe, o ogre e o copo do McDonald’s

O príncipe, o ogre e o copo do McDonald’s

    Mulher adulta parada de um lado de uma rua ao entardecer, olhando para o outro lado, com luzes douradas ao fundo e tons azulados no céu. A cena transmite nostalgia, distância simbólica e reflexão sobre o contraste entre os sonhos da adolescência e a realidade adulta.

    O Lago dos Dragões

    Ontem vi a fotografia de um filho de uma antiga paixão da minha adolescência. Fiz as contas: devia ter uns 16 anos na altura. A última vez que vi esse bebé — agora um pré-adolescente — foi no colo do pai. O filho supera o pai em beleza, mas tem o mesmo cabelo comprido que ele tanto amava.

    Ele era o meu homem ideal: moreno, cabelo comprido, alto, tocava guitarra. Eu também cantava nessa altura, por isso o meu sonho era ter alguém que cantasse comigo as canções de amor do “Oceano Pacífico”.

    Nessa época escrevi um conto que, creio, está guardado num caderno que não consigo encontrar. Mas ainda me lembro: ele era o príncipe e eu a princesa que precisava de ser salva — obrigada, querida Disney. Entre nós havia um grande lago cheio de dragões. O lago era o asfalto da rua que nos separava e os dragões eram os carros. Já não me lembro como terminava o conto da minha Raquel de 16 anos, mas sei que nessa altura ela ainda acreditava em príncipes encantados. Por isso, o final deve ter sido e viveram felizes para sempre”.

    Mas no fim, ele casou com uma princesa qualquer de um reino qualquer. Eu casei com um ogre e não fui feliz para sempre.

    Ver aquele miúdo deixou-me numa nostalgia da menina que ainda acreditava e numa tristeza da adulta que já não acredita em histórias encantadas. Porque, na vida real, poucas coisas são o que parecem à primeira vista. O amor não é um momento: é uma construção. E poucos são os que constroem. Penso que existem mais pessoas a destruir do que a construir.

    Sinto que o amor nunca esteve tão escasso como agora. Serei só eu a sentir isto?

    O regresso às apps de dating só aumenta o desencanto. Vejo homens casados que conheço e outros que não conheço. Vejo pessoas que não sabem o que querem — ou dizem que não sabem. Como assim?! Alguns sabem muito bem, mas falta-lhes a coragem de assumir que querem o mesmo que esses homens casados: mais um corpo para usar e deitar fora, como um copo do McDonald’s abandonado à beira da estrada por quem não sabe usar o caixote do lixo.

    Copos. Corpos.

    Deixe um comentário

    O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

    Resumo da Privacidade

    Este site utiliza cookies para te proporcionar a melhor experiência possível. As informações dos cookies são guardadas no teu navegador e permitem, por exemplo, reconhecer-te quando voltas ao site e ajudar a nossa equipa a perceber quais as secções que consideras mais úteis e interessantes.

    Cookies estritamente necessários

    O cookie estritamente necessário deve estar sempre ativado para que possamos guardar as tuas preferências de configuração de cookies.