Incels e a Realidade Distópica de Adolescence
Após ver os primeiros episódios, percebi que a série abordava comportamentos desviantes que associamos ao consumo de pornografia. No terceiro episódio, a ligação ficou ainda mais evidente. O comportamento daquela personagem poderia perfeitamente ser o de um adulto, o que é realmente alarmante.
Pornografia: mais presente do que nunca
Vivemos num mundo onde a pornografia está por todo o lado. Começou nos canais por cabo, hoje basta um clique. Há quem diga que é inofensiva, que é “só masturbação”. Mas não é. Gail Dines diz isto com toda a clareza:
“A pornografia entrega mensagens de misoginia ao cérebro do homem, através do pénis, de forma clara e inequívoca.”
A pornografia não mostra intimidade, não mostra prazer mútuo, não mostra consentimento. Mostra dominação, humilhação, violência. Mostra mulheres reduzidas a objetos. E essa visão do mundo cola-se à pele de quem consome. Fica entranhada.
Vi isso de perto. Mesmo os vídeos que parecem “caseiros” estão carregados de manipulação. Não são inocentes.
A manipulação que destrói
Durante anos vivi com alguém que mentiu antes, durante e depois. Era pornografia, era manipulação, era gaslighting. Cheguei a perder a noção da realidade. Tive alucinações auditivas, ataques de pânico. Tudo porque alguém me convenceu de que a culpa era minha.
Hoje sei que não era. E que esta cultura — da pornografia, do engano, da dominação — destrói.
Cultura red pill: ódio disfarçado de sabedoria
Adolescence mostra isso. Mostra uma geração perdida entre ecrãs e discursos de ódio disfarçados de autoajuda. Mostra a cultura da red pill, dos emojis, como códigos de pertença a comunidades misóginas. Mostra adolescentes a aprender com imagens e vídeos o que devia ser conversado com adultos conscientes.
E depois há os termos que se tornaram banais: incels, hipergamia, a “regra 80/20”. Todos disfarçados de “ciência” ou “realismo masculino”. Mas são só formas novas de justificar a velha misoginia.
Experiência pessoal: reconhecer os sinais
Lembro-me de conversar com alguém numa aplicação que usou a lei de Pareto para justificar este tipo de ideias. Falei disso na terapia. Um ano depois voltou a aparecer, com o mesmo discurso. Hoje, sei reconhecer os sinais. E não sou a única.
Pornografia como fuga à igualdade
A pornografia é o último refúgio dos que não sabem lidar com a igualdade. Os mesmos que, no tempo dos nossos avós, tinham a mulher em casa a cuidar da casa e a amante como objeto. Agora que as mulheres também trabalham e exigem respeito, esses homens refugiam-se em fantasias violentas.
Adolescence é um alerta
Esta série não romantiza nada. Mostra como tudo isto acaba: em solidão, dor e alienação. Para mim, que vivi isso na pele, é quase desconfortável ver. Mas é necessário. É um alerta para quem ainda acha que está tudo bem.
Não está.
Fontes:
- Dines, Gail. Pornland: Como a Pornografia Invadiu a Nossa Sexualidade. Lisboa: ArtePlural, 2012.
- CNN Brasil, National Geographic
- Adolescence. Minissérie britânica de drama criminal/psicológico, criação de Jack Thorne e Stephen Graham; realização de Philip Barantini. Reino Unido: Netflix, 13 março 2025.
