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Psiquiatria ou julgamento?

    Mulher sentada sozinha num consultório médico após uma consulta, segurando uma receita dobrada na mão. O médico surge desfocada ao fundo, atrás da secretária. A luz entra pela janela com tons azulados e um leve brilho dourado, transmitindo frieza institucional e dignidade perante a desvalorização.

    “Vai trabalhar!” — esta frase tão amada por muitos portugueses foi-me dita, pasme-se, pela minha primeira e até agora única psiquiatra.

    Considero-a uma frase carregada de toda a sabedoria que imagino ter sido adquirida nos anos de estudo dessa profissão tão cara: a medicina. Pergunto-me se existirá algum manual acadêmico com este título. E mais: será que ela oferece a mesma “repreensão sábia” a pacientes de pele branca, ou estava guardada apenas para quem parece ou é estrangeiro?

    Depois de meses à espera de uma consulta de psiquiatria, era isto que eu esperava ouvir? Claro que não. Ela esteve mal, muito mal. Mas, no fim, fui eu que fiquei sem médica. Saí da consulta e, com isso, voltei para o fim da fila. Pedi nova consulta a outro profissional através da minha médica de família, mas já passou mais de um ano e não tive resposta. E continuo a viver com uma medicação que me provoca compulsão alimentar noturna — peso que carrego no corpo e no espelho.

    Depois de uma crise familiar, refugiei-me em casa de uma tia. A consulta marcada tornou-se ainda mais crucial. Mas, no próprio dia, ao entrar no autocarro, recebi uma chamada administrativa a avisar que tinha sido adiada. Foi como ser apanhada num tornado — levantada do chão, enrolada no vento. Sabia que teria de esperar mais meses e eu precisava de ajuda imediata.

    Com a consulta desmarcada, a médica prometeu ligar-me a uma hora marcada. Não ligou. Telefonei eu. Não gostou. Perguntou-me se era preciso o “alarido” que eu fiz no dia do cancelamento. E então, com toda a sua sapiência, disse:
    — Vai trabalhar!

    Respondi:
    — Mas eu estou em formação.

    Ela tentou engolir as palavras, mas já era tarde. E lá me passou a receita do costume, com aumento na dose dos comprimidos para dormir.

    O que ela não sabia é que essa formação me permitiu adquirir as competências técnicas que uso agora para escrever e publicar este artigo.

    Reflexão

    As palavras de um médico podem curar ou podem ferir. A linha é fina, mas o impacto é profundo. Se alguém em sofrimento recebe “vai trabalhar” em vez de tratamento, não é só desumanidade — é negligência. A pergunta que deixo é: quantos de nós desistimos de procurar ajuda porque encontramos portas fechadas e frases feitas?

    Se estás numa situação parecida, lembra-te: não és o problema. O problema é um sistema que falha e profissionais que esquecem a humanidade. Continua a procurar ajuda, porque mereces mais do que comprimidos e frases secas.

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