Lusco-fusco de um sábado qualquer, 20h58.
E tudo o que eu quero é escrever as minhas dores, ver se ao final de mais este exercício de escrita terapêutica, dói um pouco menos.
Depois da tempestade emocional que foi vender a minha Bimby, apaguei as minhas contas nas apps de dating. Já o fiz antes, sim, mas desta vez é diferente. Ou pelo menos sinto que é diferente. O meu coração — esse que tantas vezes ignorei — está cansado. E embora seja uma pessoa muito racional, também sei ouvir o coração quando ele fala claro: “não quero mais.”
Não quero que doa mais, à toa, sem sentido.
Foram mais de três anos de uso ativo destas apps. A pilha acabou.
O saldo: mais frustração do que memória
Tive muitos dates. Conheci muitos homens. Só um me deixou saudade — e sobre ele já escrevi, no texto “No lado sul de todos os rios que correm entre nós.”
De todos os outros, ficou uma conclusão crua e nada animadora: os que estavam mais disponíveis para estar comigo, eram também os menos preparados para uma conversa que fosse além do óbvio.
Pouca escolaridade. Falta de vocabulário. Zero de consciência social. Alguns até tentavam impressionar usando palavras caras — sem saber o que diziam. Caía tudo no ridículo.
E não falo de estatuto. Falo da falta de ferramentas básicas para sustentar uma conversa com substância. Homens que abandonaram a escola cedo — por escolha ou por necessidade familiar — e que começaram a trabalhar demasiado novos. Sem tempo para ser crianças. Sem tempo para desenvolver gosto por aprender. Sem tempo para desenvolver competências emocionais.
E sim, isso molda a forma como se relacionam — sobretudo com mulheres que não se encaixam no seu molde cultural.
O que dizem os dados: disparidades na literacia
As estatísticas confirmam o que vivi.
As raparigas, desde cedo, superam os rapazes em leitura e escrita. Dados do NAEP (nos EUA) mostram que até ao 12.º ano, as raparigas têm melhor desempenho em leitura e ainda mais em escrita. No estudo PIRLS 2021 (4.º ano), as meninas tiveram melhores resultados em 51 dos 57 países, com uma diferença média de 19 pontos.
Isto deve-se em parte a fatores cognitivos e motivacionais: as raparigas têm, em geral, melhor vocabulário e mais interesse pela leitura. Já muitos rapazes desligam-se da escola mais cedo. Este padrão educativo reflete-se diretamente na forma como homens e mulheres usam linguagem, tecnologia e comunicação nas relações pessoais.
Compatibilidade intelectual nas relações amorosas
Estas assimetrias têm impacto direto no mundo dos encontros online.
As pessoas mais escolarizadas — especialmente os homens — recebem mais atenção nas apps. Um estudo com 1,8 milhões de perfis mostrou que ter mais educação e salário elevado aumenta a popularidade. Mas este efeito é 2,5 vezes mais forte nos homens.
As mulheres com formação superior são mais seletivas: 54% dizem que não sairiam com alguém sem educação superior. No fundo, procuramos compatibilidade cognitiva — parceiros que falem a mesma língua, literalmente e figurativamente.
Um estudo revelou que o vocabulário dos cônjuges está fortemente correlacionado. Isto significa que, na prática, as pessoas tendem a escolher parceiros com o mesmo nível de literacia. E os casais com escolaridade semelhante reportam mais satisfação, menos conflitos e relações mais equilibradas.
Comunicação e poder dentro dos casais
As diferenças de literacia também afetam a comunicação.
As mulheres, regra geral, captam melhor nuances, subentendidos e focam-se mais na cooperação. Muitos homens, pelo contrário, priorizam status e decisões isoladas.
Quando há desequilíbrio, surge frustração: quem tem mais literacia acaba por carregar a relação — seja a interpretar contratos, escrever emails ou explicar ideias.
A verdade é simples: casais que se entendem melhor, comunicam melhor. E isso depende em grande parte da base educacional dos dois lados.
E em Portugal?
Hoje, em Portugal e noutros países europeus, há mais mulheres com diplomas universitários do que homens.
Os dados indicam que casais com níveis de escolaridade semelhantes — ou com mulheres mais instruídas — tendem a ser mais estáveis e têm menor probabilidade de se separar.
Ou seja: o que eu vivi não é “esquisitice minha”. É reflexo de um desequilíbrio estrutural ainda muito presente.
Reflexão e encorajamento
Se também estás cansada/o de encontros que não passam do raso, não é só cansaço — é lucidez.
Não é arrogância querer conversar com alguém que perceba as tuas referências. Não é snobismo querer alguém que saiba argumentar com respeito, rir com subtileza, ler nas entrelinhas.
A literacia não é apenas sobre saber ler — é sobre saber interpretar, sentir, comunicar, construir.
Talvez, como eu, estejas a chegar ao fim da estrada do “só mais um date para ver no que dá”.
Talvez, como eu, também estejas a ouvir o teu coração a dizer: basta.
E se for o caso, então que esta pausa não seja desistência — mas antes uma escolha consciente. Porque há mais dignidade em parar do que continuar a oferecer o melhor de ti a quem nem percebe o que tens para dar.
Fontes:
- NAEP (National Assessment of Educational Progress)
- PIRLS 2021 (Progress in International Reading Literacy Study)
- https://ifstudies.org/blog/the-dating-economy-how-much-education-matters
