Desde o fim do verão que ando sem norte.
Acho que me deixei perder na praia e ainda não consegui encontrar o caminho de volta para mim.
Tinha grandes expectativas para este verão e, com grandes expectativas, vieram grandes desilusões.
2024 foi um ano sem praia, então decidi que em 2025 seria mais intencional nas minhas idas ao mar. Mas tudo acabou em insatisfação. Não apanhei uma única bandeira verde. A bandeira amarela foi rainha e a vermelha aparecia de vez em quando. A água não me passou dos joelhos.
Fiquei à espera de dias melhores, mas eles não vieram. Ainda tenho o guarda-sol no carro. Ainda queria sentir o sol e o mar. E por isso devo ter amarrado o burro. Agora, já é Natal, continuo com o burro amarrado e nem o presépio tirei cá para fora.
Ando perdida, sem rumo e sem norte. Se me vires por aí, indica-me o norte.
E não é só na praia que ainda estou.
Esta semana dei por mim a chorar, lamentando de dor, numa mesa de jantar noutra casa, noutro país. E percebi que ainda não consegui sair daquele dia em que chorei:
“o que vai ser de mim com quarenta anos?”
Ainda estou ali.
Naquele lugar de dor e desesperança.
As lágrimas continuam a fugir-me dos olhos e correm como rios que não desaguam no mar. O coração aperta e dói — agora uma dor mais real. Como se estivesse torcido dentro do peito, como uma peça de roupa espremida à mão depois de lavada. Mas é sangue que escorre.
Talvez tenha andado a perder sangue sem saber ao longo destes quatro anos. E agora escorro o que resta.
E quando já não houver mais nenhuma gota?
Encontro-me ou perco-me de vez?
Porque o meu lamento continua o mesmo:
“o que vai ser de mim com mais de quarenta anos?”
Parece que fiquei parada no tempo naquele lugar de dor.
Mas o tempo não espera por ninguém. Muito menos por mim.
Análise segundo Erich Fromm e Gabor Maté
Este texto não fala de fraqueza.
Fala de alienação emocional — o afastamento profundo de mim mesma quando o sentido interno se desorganiza.
Alienação emocional (Erich Fromm)
Erich Fromm descreve a alienação como o estado em que a pessoa se afasta de si própria, das suas emoções autênticas e do sentido interno da sua vida, passando a viver como se fosse uma estranha para si mesma.
“O indivíduo alienado relaciona-se consigo próprio como com um objeto, e não como com um sujeito vivo.”
— Erich Fromm
Expressões como “ando sem norte”, “não encontrei o caminho de volta para mim” ou “fiquei parada naquele lugar de dor” ilustram aquilo que Fromm chama desancoragem existencial: a perda de ligação a um centro interno que organiza escolhas, desejos e direção.
Para Fromm, isto surge quando:
- o mundo interno deixa de acompanhar o externo;
- a vida imaginada colide com a vida real;
- a pessoa deixa de se sentir autora da própria história.
Ele descreve esta condição como estar no mundo sem sentir que se pertence a ele.
A pergunta repetida — “o que vai ser de mim?” — é, assim, uma tentativa de recuperar sentido, não um sinal de fragilidade.
Sobrecarga emocional somatizada (Gabor Maté)
O texto revela também sobrecarga emocional somatizada.
Para Gabor Maté, quando emoções profundas não podem ser sentidas ou expressas em segurança, o corpo assume esse peso.
“O corpo não cria sintomas para nos trair, mas para nos proteger.”
— Gabor Maté
A dor física descrita — o coração torcido, o sangue a escorrer, o esgotamento — é o corpo a falar quando a mente já não consegue integrar a experiência.
Segundo Maté, isto acontece quando a pessoa:
- teve de suprimir emoções cedo;
- viveu demasiado tempo em modo de adaptação;
- ignorou sinais internos para continuar a funcionar.
Fixação traumática
Maté chama fixação traumática ao estado em que uma parte da pessoa fica emocionalmente presa a um momento de perda — de identidade, esperança ou direção.
A vida avança, mas algo dentro fica parado.
Por isso a pergunta não muda, mesmo com o passar dos anos.
Não é nostalgia.
É o sistema nervoso a agir como se o perigo ainda estivesse presente.
A imagem do “sangue a escorrer” traduz a perda contínua de energia vital quando a dor não encontra resolução.
E a pergunta final — “quando já não houver mais nenhuma gota?” — não é desespero. É consciência do limite e início de uma procura de reconstrução.
Fontes
- Fromm, E. (1947). Man for Himself: An Inquiry into the Psychology of Ethics. Rinehart.
- Fromm, E. (1956). The Art of Loving. Harper & Row.
- Maté, G. (2018). In the Realm of Hungry Ghosts. North Atlantic Books.
- Maté, G. (2022). The Myth of Normal. Avery.
