Só tenho um lugar seguro — e não é a casa onde habito. Por isso, não posso chamar a este espaço de “lar”. Primeiro, porque não é meu. Segundo, porque não é um lugar onde me sinta segura. Pelo contrário.
Neste sítio onde vivo, sempre se defendeu a ideia de abrir a porta a toda a gente. Eu nunca concordei com essa crença. Nem toda a gente vem por bem, nem toda a gente é do bem, e — mais importante ainda — nem toda a gente nos faz bem.
Aqui, já muita gente me fez mal. E, infelizmente, continuam a fazê-lo. Por isso, quando tenho mais um ataque de pânico ou entro em mais um conflito absurdo, dou por mim a lembrar que nunca vou recuperar neste lugar. Porque este não é o meu lugar. Nunca foi.
Gabor Maté, médico e especialista em trauma, afirma que o corpo carrega as marcas do ambiente em que vive. Ele diz com clareza:
“Não podes curar-te no mesmo ambiente onde adoeceste.”
E é isto que tenho sentido na pele. Não se trata só de desconforto. Trata-se de um espaço que me agride, que ativa constantemente as minhas feridas, que me impede de baixar a guarda. E enquanto o meu corpo viver em alerta, não há descanso, não há cura, não há paz.
Há quem normalize viver assim. Eu não consigo. E recuso-me a chamar “lar” a um sítio onde sobrevivo, mas não existo.
Não Tens de te Adaptar ao que te Faz Mal
Mas saber isto já é um passo. Reconhecer que o ambiente em que estamos nos faz mal não é fraqueza — é lucidez. E, como diz Gabor Maté, a cura começa com a coragem de nomear o que nos adoece. Ele escreve que o corpo não mente. Se grita, se entra em pânico, se foge, é porque já percebeu o que talvez ainda estejamos a tentar negar: não estamos seguros. E sem segurança, não há recuperação.
Não temos de aceitar viver em alerta permanente. Mesmo que agora não possamos sair fisicamente deste lugar, podemos começar por sair mentalmente da ideia de que temos de nos adaptar a ele. Não temos.
Um dia, havemos de construir ou encontrar um lugar nosso — um espaço onde possamos respirar sem medo, dormir sem vigiar e ser quem somos sem pedir desculpa. Até lá, protegemos o nosso mundo interior como quem guarda a última faísca numa noite gelada. Porque é isso que é: a nossa luz. E ela ainda está aí.
Não deixes que ninguém a apague.
Fonte:
Documentário “O Trauma é um Vício”, Gabor Maté
