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Sou areia náufraga de nenhum mundo

    uma mulher numa praia de pés descalços sobre a areia com o mar por trás

    Há frases que ficam connosco porque dizem em poucas palavras aquilo que sentimos desde sempre. Esta, de Mia Couto, é uma delas:

    “Sou areia náufraga de nenhum mundo.”

    Ser mestiça é não ter uma terra onde tudo o que somos seja reconhecido. É viver com o corpo dividido entre geografias, línguas, olhares e expectativas. É não caber nos rótulos que nos impõem. É ouvir que és “exótica”, “diferente”, “morena com traços bonitos”. É sentires-te estrangeira mesmo em casa.

    Durante anos, tentei encontrar um lugar onde não tivesse de escolher entre ser filha de África ou filha de Portugal. Um lugar onde não tivesse de traduzir constantemente quem sou. Mas esse lugar não existia fora de mim. Só quando aceitei que a minha identidade é mistura — e não um problema para resolver — é que encontrei paz.

    A areia náufraga não tem cais, mas também não precisa de um. Move-se com o vento, adapta-se, transforma-se. Ser mestiça é ter aprendido a sobreviver em espaços onde a linguagem não chega, onde os olhares pesam mais que palavras.

    O racismo, muitas vezes, não aparece com violência explícita. Aparece no desconforto que o outro sente quando não sabe como te classificar. Aparece nas microagressões que te tentam moldar. E tudo isso afeta as nossas relações — connosco, com os outros e com quem tentamos amar.

    Já me senti fora de lugar mais vezes do que consigo contar. Não apenas por causa da cor da minha pele ou da origem da minha mãe, mas por tudo aquilo que sou e que o mundo nem sempre soube ler.

    Demasiado sensível para quem valoriza dureza.
    Demasiado direta para quem espera suavidade.
    Demasiado africana para alguns, demasiado portuguesa para outros.

    O racismo, na maioria das vezes, não grita.
    Sussurra.

    Na forma como te olham quando entras numa sala.
    Na pergunta “de onde és?” feita com uma curiosidade que não é inocente.
    No tom paternalista, no elogio disfarçado de exotismo.

    Há muito que percebi: isto não acontece só lá fora.
    Acontece dentro de nós.
    A forma como nos olhamos ao espelho, a maneira como nos calamos quando devíamos falar.
    A culpa por sermos diferentes.
    A tentativa constante de nos tornarmos mais aceitáveis.

    Durante anos, tentei caber.
    Ser mais parecida com o que os outros esperavam.
    Falar como eles. Vestir-me como eles.
    Anular o que em mim era mistura, cruzamento, desconforto.

    Hoje, sei que não quero caber.
    Quero existir inteira.

    Se tu que estás a ler isto já te sentiste demais para uns e de menos para outros, deixo-te esta pergunta:

    E se fosses só suficiente para ti?

    Não tens de te definir por nenhuma margem.
    Nem justificar a tua existência.
    Nem viver em esforço constante para encaixar.

    Talvez seja o momento de te escolheres.
    Mesmo que ainda não saibas bem como se faz.
    Mesmo que ainda tenhas medo.
    Mesmo que o mundo não esteja preparado para te receber por inteiro.

    Tu estás.

    Fonte:

    Mia Couto, “Poema mestiço”, Raiz de Orvalho, 1983.

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