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Too Sweet

    uma caneca a derramar café sobre uma cama

    — e depois ainda me perguntam porque estou solteira

    Quando a letra nos atravessa

    Ontem descobri a música Too Sweet do Hozier. Já tem um ano, mas caiu-me no colo através de um vídeo do The Voice americano.
    Gosto do programa, confesso. Também gosto do John Legend, que lá está a brilhar e a encantar.
    Mas o que me prendeu mesmo foi aquela música.

    Não me emocionou. Deixou-me triste.
    Foi como se o Hozier me olhasse nos olhos, visse tudo o que sou e dissesse:
    “És doce demais para mim. Next.”

    Ouço novamente a letra. E é como levar com um recado direto à testa:
    “Sim, tu! És doce demais para mim.”

    Não era uma mensagem. Era uma canção. Mas, honestamente, a diferença foi pouca.

    Já me disseram isto antes. Literalmente.

    Não foi o Hozier, claro.
    Mas já o li. Escrito.
    E fiquei confusa.
    Se sou genuína, se sou constante, se sou “tudo isso”…
    Porque é que isso afasta?

    “És demasiado doce.”
    Escrito. Com todas as letras.
    E eu, ingénua, ainda fui confirmar no dicionário se “doce” era sinónimo de “insuportável”.
    Aparentemente, é.

    Too sweet to be savory

    “Too sweet to be savory”, diz ele.
    Tradução?
    “És genuína, simpática, emocionalmente estável e disponível — mas não me dás aquele frio na barriga de quem vai arruinar a minha vida.”
    Ou seja:
    Ele quer whisky sem gelo.
    Café amargo.
    Cama às três da manhã com ressaca emocional.
    E eu? Que gosto de dormir. De conversar. De digestão lenta.
    Match? Não.
    Mismatch de excelência.

    A letra não deixa margem

    Ele prefere o amargor.
    O Whisky puro. O café sem açúcar. A cama às três da manhã.
    Ela — a parceira da letra — é suave. Estruturada. Doce.

    Ele reconhece que ela é encantadora. Mas não quer mudar por ela.
    Assume a incompatibilidade e vira costas.
    Honesto? Sim. Doloroso? Muito.

    Serei eu inviável?

    É a pergunta automática. Mas não é a pergunta certa.

    A questão não é se sou demasiado doce.
    É se estou a tentar encaixar em espaços onde a minha forma de estar nunca será compreendida.
    Não, não sou inviável.
    E tu também não és, se te reconheces aqui.

    Ninguém muda ninguém

    O Hozier explicou, num short do YouTube, que a música fala sobre indulgência.
    Sobre alguém que já escolheu o seu lado da vida.
    E que não está disposto a ceder, por mais doce que seja quem tem à frente.

    Espero, honestamente, que a mulher que inspirou a canção também não tenha mudado.
    Porque o amor não é sacrifício pessoal nem jogos de poder.
    É aceitação.
    É equilíbrio dentro dos nossos limites e do que queremos construir em conjunto.

    E depois ainda perguntam por que estou solteira

    E depois ainda há quem se admire.
    “Mas como é que tu, com esse coração, essa lucidez, essa leveza…?”
    Pois. Ser simpática dá alergia. Ser coerente é crime. Ser doce é motivo de bloqueio.

    Se calhar o problema sou eu.
    Ou se calhar — e só estou a lançar a hipótese —
    o mundo está cheio de adultos cansados a fazer birras emocionais com ar de quem sabe muito.

    Eu sou doce. E daí?

    Essa doçura vive em mim há muito tempo.
    Está na forma como falo, como escuto, como me dou.
    É sensibilidade, sim. É vulnerabilidade, sim. Mas é também força.

    E talvez não esteja na moda. Talvez nunca tenha estado.
    Mas é a minha essência.
    E eu não vou mudar isso para caber em nenhum molde.

    Sou doce. E estou bem assim.
    Não sou para quem precisa de drama com cafeína.
    Sou para quem valoriza descanso emocional e chá (Earl Grey, de preferência) com bolachas (de manteiga).
    E sim, estou solteira.
    Mas ao menos durmo mais ou menos bem.

    Reflexão e encorajamento

    Se já te disseram que és “demasiado” para alguém — demasiado intensa ou intenso, sensível, atenta ou atento ou doce —, lembra-te disto: o problema nunca foi teu.

    O problema é querermos ser aceites por quem já escolheu não ver.
    E isso, meus queridos, é perda de tempo.

    Continua a ser quem és.
    Com firmeza. Com lucidez. Com ternura.
    Mesmo que isso assuste quem só sabe viver em modo escuro.

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