Mater mea narcissistica est.
Só hoje é que me caiu a ficha.
A manipulação sempre esteve presente — assim como a necessidade de ser o centro do nosso pequeno mundo.
Mas durante anos desculpei tudo com o passado dela.
Afinal, uma infância de exploração pela própria família e uma vida marcada por guerra e exílio pareciam suficientes para justificar qualquer dureza.
Achei que essas feridas anulavam a possibilidade de narcisismo.
Mas não anulam.
O narcisismo patológico
Segundo Otto Kernberg, o narcisismo patológico é uma estrutura de personalidade marcada por falta de empatia, identidade frágil e uma necessidade constante de admiração.
O narcisista não vê o outro como um ser autónomo, mas como um espelho que deve confirmar a sua importância.
Por trás da grandiosidade, há um vazio e uma dor antigos — um mecanismo de defesa que se torna modo de vida.
A minha mãe cresceu num ambiente que destruiu o seu sentido de segurança.
Foi explorada em criança, depois viveu o terror de uma guerra civil, foi forçada a fugir e a recomeçar.
Kernberg explica que experiências traumáticas e abandono precoce podem gerar esta rigidez: o amor é vivido como risco e a vulnerabilidade como ameaça.
No caso dela, o trauma cristalizou um narcisismo defensivo — um modo de garantir controlo num mundo imprevisível.
Narcisismo defensivo
De acordo com o autor, o narcisismo defensivo é um mecanismo de sobrevivência emocional que a pessoa desenvolve para não sentir dor, vergonha ou rejeição.
Não nasce da vaidade, mas do medo.
Quando a criança vive experiências precoces de humilhação, abuso, abandono ou falta de afeto, cria uma versão idealizada de si mesma — forte, admirável, inatingível — para não entrar em contacto com a sua fragilidade.
Essa “versão ideal” torna-se uma armadura.
Kernberg descreve este tipo de narcisismo como:
“Uma defesa contra a experiência de um self despedaçado e a ameaça constante de perda de amor.”
O que acontece é que a pessoa, para se proteger, começa a viver através dessa máscara.
Controla os outros para não se sentir impotente, rejeita antes de ser rejeitada e exige atenção constante para evitar o medo do vazio.
Ela aprendeu que mostrar vulnerabilidade era perigoso.
Por isso, construiu uma identidade forte, impenetrável, sempre no comando.
Mas, por baixo dessa força, está uma dor antiga, nunca validada.
O narcisismo defensivo é, no fundo, uma forma de dizer:
“Não me magoes outra vez.”
No turbilhão
Há mais de uma semana fui arrastada por um turbilhão de acontecimentos que me fizeram pôr em pausa todos os limites que tenho tentado aprender a traçar.
Mais uma vez, fui empurrada para cuidar dos outros — porque as necessidades deles são sempre mais urgentes e importantes do que as minhas.
Hoje, no meu dia de descanso, ela bateu-me à porta a pedir “só mais uma vez, e é a última”.
Disse-lhe que precisava da pouca energia que me restava para cuidar da minha vida.
E foi aí que percebi: ela não me ouviu, não me entendeu, não sentiu empatia.
Queria sair, não porque precisava, mas porque queria.
E deixou-me, mais uma vez, a assumir as responsabilidades que eram dela.
Olhei para ela e finalmente vi.
Ela é narcisista.
A conversa terminou comigo a dizer: “Seja feita a tua vontade.”
Só faltou o Ámen.
Porque nunca consegui ver antes?
Porque vi a dor antes do poder.
Vi a vítima antes do manipulador.
E a empatia cegou-me.
Kernberg diz que é comum o narcisista confundir os outros com um prolongamento de si — e que quem o ama entra nesse jogo sem perceber.
Durante anos confundi empatia com compreensão.
Mas empatia sem limites transforma-se em submissão.
Fromm dizia que o oposto do amor não é o ódio, é o narcisismo.
Amar é reconhecer o outro como um ser separado.
O narcisista não consegue: precisa de admiradores, não de relações.
A minha mãe ama à sua maneira.
Confunde amor com controlo e cuidado com posse.
A minha mãe veio de um mundo de escassez emocional: onde a sobrevivência era prioridade e o amor, um luxo.
Controlar é a sua forma de garantir que nada lhe será tirado.
No fundo, ela gere os afetos como quem gere recursos — sempre com medo da perda.
Percebi então que o trauma não apaga o narcisismo, apenas o disfarça.
O sofrimento explica, mas não desculpa.
O controlo é a forma de pedir amor sem parecer fraca.
A exigência é o disfarce do medo.
Fala com autoridade porque nunca aprendeu a pedir com ternura.
E agora sei — reconhecer o narcisismo da minha mãe não é deixar de ter compaixão, é deixar de me anular em nome dela.
Ver tudo isto ao mesmo tempo é finalmente compreender — sem precisar de desculpar.
📚 Fontes
- Kernberg, Otto F. (1975). Borderline Conditions and Pathological Narcissism. New York: Jason Aronson.
- Kernberg, Otto F. (2014). Narcissism, Aggression, and Self-Destructiveness in the Therapeutic Relationship. Yale University Press.
- Fromm, Erich (1956). A Arte de Amar. Lisboa: Edições 70.
- Illouz, Eva (2012). Por que o Amor Dói. Lisboa: Temas e Debates.
- Rosenberg, Marshall B. (2003). Comunicação Não Violenta. São Paulo: Ágora.
