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Comprometer-se em dois meses?

    um casal a exibir as alianças com uma terceira pessoa em background

    Estamos todos doidos?

    O meu último date foi há cerca de dois meses. Hoje, essa pessoa publicou fotos da nova namorada com alianças de compromisso. Tudo público, tudo bem encenado.

    Enviei-lhe uma mensagem curta. Não por drama — por genuína preocupação. O que vi ali não foi amor. Foi urgência. Foi pose. Disse-lhe: “Cuidado com as pressas e com a necessidade de te provares aos outros.”
    Claro que respondeu: “Não me estou a provar a ninguém.” Pois.

    Mas quem é que se compromete assim? Dois meses depois? Isso não é amor, é medo. Medo de estar sozinho. Medo de sentir o vazio. Medo de não parecer bem aos olhos dos outros.

    Amor ou palco?

    Já cometi esse erro. Tirei fotografias. Sorri muito. Parecia feliz. E depois? Fui eu que tive de apagar tudo — uma a uma. E mesmo assim, ainda aparecem perdidas. Provas digitais da tristeza. Do autoengano. Da pressa.

    “O amor imaturo diz: amo-te porque preciso de ti. O amor maduro diz: preciso de ti porque te amo.” — Erich Fromm

    Estamos a comprometer-nos com pressa. A dar promessas que não cabem em dois meses. A mostrar tudo nas redes, como se isso validasse alguma coisa.

    As pessoas sem noção

    Ontem fez quatro anos que voltei a Portugal. Quatro anos que saí de casa. Lembrei-me da pessoa com quem vivia. Um dia, pediu desculpa por “não me ter feito feliz”.
    Ainda hoje acho essa frase reveladora.
    O problema nunca foi ele não ter conseguido fazer-me feliz.
    Foi o contrário: foi muito bem-sucedido a fazer-me infeliz. Ao ponto de me fazer adoecer.

    “É preciso responsabilizar-se pelos afectos que se oferece.” — Djamila Ribeiro

    Há pessoas que vivem sem noção. Não têm consciência do mal que causam, nem vontade de a ter. Vivem a saltar etapas, a mostrar-se sem se conhecerem, a comprometer-se sem saber o que isso significa.

    Relações performativas: para quem é o espetáculo?

    Estamos a assistir a relacionamentos que não são vividos — são exibidos.
    Mostram-se alianças, jantares, juras. Tudo público. Tudo ensaiado.
    Mas quando a realidade chega, ninguém aguenta.

    As pessoas querem o cenário. Não querem o trabalho. Querem a legenda bonita, não o compromisso real. E isso, para mim, não é amor. É performance.

    Reflexão

    Se o outro se compromete em dois meses, isso não me diz respeito.
    Se exibe a relação como um troféu, isso não me diminui.
    Se não teve noção comigo, não vai ganhar noção com outra pessoa.

    Eu não estou atrasada. Não estou errada. Não estou sozinha por ser exigente.
    Estou consciente. E isso, hoje em dia, é um ato radical.

    Fontes:

    FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 1956.

    Ribeiro, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

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