Esta é a segunda vez que escrevo inspirada pelo documentário Olhos Azuis, uma obra poderosa sobre as experiências da professora e socióloga Jane Elliott. Este documentário revela de forma clara e incisiva como o racismo e a discriminação são perpetuados pela construção social do papel do opressor. E essa construção não acontece sozinha — depende do silêncio de muitos para se manter viva e atravessar gerações.
Hoje, voltei a testemunhar esse silêncio. Num grupo de quase 20 pessoas, encontrei-me sozinha contra dois, enquanto a maioria optava por não intervir, por não quebrar o silêncio.
Há mais de 20 anos, durante a minha adolescência, vivi uma experiência semelhante numa sala de aula. Escrevi sobre isso há algum tempo, mas essas palavras perderam-se nos algoritmos do Meta. Hoje, num contexto diferente, mas com a mesma essência, senti-me a reviver aquilo. E, tal como antes, chorei. Mas antes das lágrimas, intervi. Disse que o tema me incomodava, expressei o meu desconforto. Todos puderam ver e ouvir. E se escolherem continuar na mesma, não será por desconhecimento, mas por falta de vontade de mudar — porque mudar dá trabalho.
Mas, enquanto olho para este momento, vejo algo que não existia antes: eu mudei. E isso é o mais importante.
No ano passado, perguntei à minha psicóloga como deveria lidar com o racismo, porque sentia que ainda não sabia fazê-lo. Ela respondeu algo simples, mas poderoso: “olha-o de frente”. E foi o que comecei a fazer. Hoje, fui além desse olhar. Dei-lhe voz. Foi preciso meia vida para chegar aqui, mas consegui.
Aos que falam do que não conhecem, que opinam sem saber, digo: eduquem-se antes de falar.
E àqueles que se importam, deixo um apelo: não se calem. O silêncio nunca foi, nem será, o caminho para a mudança.
