Gosto de ir à praia sozinha. Não é disfarce, é escolha. Sei onde estender a toalha, evito a confusão, levo o livro certo. Há paz nisso. Há liberdade. Mas mesmo assim… não chega.
O que falta não é companhia por obrigação, é partilha com significado. Há dias em que o corpo está ao sol, mas o coração continua nublado. E não por carência qualquer — mas por uma vontade real de viver um verão com presença, com trocas verdadeiras, com toques que não sejam imaginados.
Nesses dias, dou por mim a criar histórias na cabeça, a olhar de lado para desconhecidos, a desejar ser notada. Como se isso servisse de prova de que ainda pode acontecer alguma coisa. E pode. Só que ainda não aconteceu.
Há um vazio difícil de nomear quando tudo à volta vibra em modo festa, e por dentro só se ouve o silêncio. Não é drama. É facto. É o desconforto de mais um verão a desejar o que não veio.
Lembrei-me da bell hooks, que escreveu:
“Amar é estar aberto ao luto, ser tocado pela tristeza, mesmo por uma tristeza que não tem fim.”
Talvez amar — a nós próprios — também seja isto: não fugir da tristeza. Aceitar que a dor de querer mais não nos diminui. Apenas mostra que estamos vivos.
Não tens de te habituar à solidão como se fosse castigo. Podes estar bem contigo e, ao mesmo tempo, desejar partilha. Podes gostar da tua própria companhia e ainda assim sonhar com o dia em que alguém se deite na areia ao teu lado — sem medo, sem jogos, sem pressa.
Se hoje ainda não for esse dia, sê gentil contigo. Não deixes que a tristeza te faça acreditar que há algo de errado em sentir. Não há. A tua luz não se apaga por quereres partilhá-la. Só prova que continua acesa.
Fonte:
hooks, bell. Tudo Sobre o Amor: Novas Perspetivas. São Paulo: Editora Elefante, 2021.
