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Como Ser Rejeitada em 5 Passos

    uma mulher a andar numa passadeira para o lado esquerdo quando todas as outras pessoas estão a ir para o lado direito

    Uma chávena de coragem, uma chávena de carência, uma colher de desespero, uma colher de solidão e uma pitada de autoconfiança. Eis a receita.

    A Repetição do Erro

    Vamos voltar ao dia em que escrevi sobre isto pela primeira vez, no artigo Três Anos de Solidão (Que Parecem Trinta). Vesti de novo a roupa de stalker e fui atrás de um homem que frequenta o mesmo café que eu. Como a história era minha, inventei sinais onde não existiam, olhares que não foram trocados. Quando dei por mim, já lhe tinha enviado uma mensagem — pareço o Joe Goldberg da série You.

    Será Isto Masoquismo?

    Como é que isto aconteceu? Outra vez?
    E o pior: ele ignorou. Passadas 24 horas, ainda lá estava eu a ver se havia resposta, agarrada a uma esperança absurda.
    Será este um comportamento masoquista?
    Auto-flagelação?
    Uma esperança doida de quem não consegue desistir?

    A resposta está naquilo que Erich Fromm chama de “fome de ligação” — um impulso humano profundo que, quando não é satisfeito de forma saudável, transforma-se em desespero. Para Fromm, o desejo de união não é uma fraqueza individual, mas uma necessidade essencial do ser humano:

    “A necessidade de união com outro ser humano é a mais poderosa força no ser humano.”
    Erich Fromm, A Arte de Amar (1956)

    Amor ou Desespero?

    Sim, é uma fome. Sim, é um impulso. Não, não está satisfeito. Sim, é desespero.
    Mas concordo com o autor: não é uma fraqueza.
    Embora, na pele, ainda o sinta como tal.

    Quando essa necessidade é ignorada ou frustrada, entramos num ciclo de repetição: projetamos, fantasiamos, forçamos interações que não estão realmente a acontecer. Mas o corpo acredita. E a dor, mesmo sem resposta, é real.

    As Apps Não Resolvem

    Foi para não incomodar ninguém que entrei nas apps de dating. Ali, tentei de forma diferente, com mais cuidado e consciência. Mesmo assim, houve conversas que não avançaram, expectativas que se desfizeram em silêncio, esperas por mensagens que nunca chegaram. E a pergunta voltou:

    “Estou a fazer isto mal?”

    A cultura moderna tende a ver o amor como algo a “obter” rapidamente, não a desenvolver com tempo e dedicação. Essa visão destrói qualquer hipótese de amor verdadeiro — mas esse não é o meu caminho.

    E Agora, o Que Faço com Isto?

    “Como dou a volta à situação?”
    Fromm propõe o oposto do que as apps incentivam: em vez de procurar fora, começa-se dentro. O amor exige treino, disciplina, atenção, paciência. Não é “achar alguém certo”, é tornar-nos capazes de amar de forma madura. Sem isso, o padrão repete-se.

    No início do mês, ainda tentei outra conversa com outra pessoa. Houve resposta, mas não resultou. Mais uma vez, deu em nada.
    A tentação de dizer “sou eu o problema” é forte — mas Fromm diria que o verdadeiro problema é esta cultura que nos convenceu que amor se “arranja” como um serviço. Mas essa visão simplifica demais a situação. O verdadeiro problema não está só em nós, mas numa cultura que transformou o amor numa mercadoria para “arranjar” rapidamente, como se fosse um produto descartável. Essa cultura alimenta expectativas irreais, o imediatismo e a desistência precoce. Assim, não basta culpar-nos; é preciso perceber o contexto e aprender a amar de forma consciente e madura, sem ilusões nem pressas.

    O autor dá uma direção: cultivar o amor-próprio, não como consolo, mas como base. Aprender a estar só, sem cair na ilusão. E quando a união acontecer, que seja entre dois seres inteiros — não dois fragmentos a tentar colar-se.

    Fontes:

    • Fromm, Erich. A Arte de Amar. 1956.
    • Fromm, Erich. O Medo à Liberdade. 1941.
    • Fromm, Erich. Ter ou Ser? 1976.

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