Notas sobre ex-maridos, compulsões e apps sem saída
De novo um pesadelo com o ex-marido. E, como cereja no topo do dia, mais um adeus nas apps. Estarão os dois acontecimentos ligados? Talvez. Não sou psicóloga, mas tenho olhos e memória.
Tudo começou com o lanche da meia-noite, cortesia do comprimido para dormir. Os efeitos secundários são lixados: há mais de um ano que ganhei esta compulsão alimentar noturna. Com o aumento da dose, veio o aumento de peso. Nada cool, como se costuma dizer. Mas se tiver de escolher entre passar a noite em branco ou levantar-me para comer uma fatia de pão com manteiga às três da manhã, escolho o pão sem hesitar. A insónia não me torna uma pessoa melhor.
Claro que os meus — com o seu habitual apoio passivo-agressivo — lançam o clássico “não te cuides, não…”
Obrigada. Tão amáveis como sempre.
O pesadelo foi entre as seis e as oito da manhã, e ainda o trago colado ao corpo. Começou com uma discussão absurda com alguém cá de casa. Daquelas que nem sei bem como começam, mas de repente já estou a falar alto, já estou a bater com as mãos nos móveis, e já estou a ouvir frases que não pedi para ouvir. A certa altura, soltaram-me com toda a calma do mundo que o meu ex já tinha outra — e não só isso, que continuava a viver com os pais, que trabalhava perto daqui e que a nova rapariga também não vivia sozinha. E que já tinha sido chamada à atenção pela ex-sogra por causa de um qualquer drama com comida.
E o pior: houve ali um momento em que pensei — “espera lá… será que essa nova rapariga sou eu…?”
Acordar com a dúvida existencial de que podes ser figurante num pesadelo sobre ti própria, sem aviso nem guião, é daquelas coisas que só a minha cabeça consegue produzir.
Lá vamos nós outra vez.
Foi assim que acordei: coração acelerado, cabeça cheia, corpo cansado.
Peguei no telemóvel ainda com a almofada marcada na cara. Estava à espera de resposta de um tipo com quem tenho falado há quase duas semanas. A resposta veio, sim… Mas com o típico tom vago e passivo. A reclamar que é difícil encontrar alguém com quem se possa conversar.
Pois é. Mas isto já não é conversa — é manutenção. Há quase duas semanas nisto, e nem um café. Mandei-lhe a dica esta semana:
“Estamos na friend zone?”
Resposta: “Não…”
Mas não mudou nada.
Entretanto, ando a ver a série O Amor no Espectro na Netflix. Gosto muito. Num episódio, o pai de um rapaz disse:
“O objetivo do primeiro encontro é ter um segundo encontro.”
Ri-me. Sabedoria pura.
Sim, sou carente. E também persistente.
Não finjo que não quero companhia — quero, sim. Mas não a qualquer preço.
É esse lado teimoso que me faz continuar a acreditar que amar bem ainda vale a pena, mesmo depois dos pesadelos e dos matches falhados.
Porque há uma parte de mim que recusa deixar que o cansaço me torne fria.
Há uma parte de mim que, mesmo farta, ainda quer acreditar que pode haver algo real — sem jogos, sem desculpas, sem medos.
Por isso, hoje é mais um “depois do adeus”.
Mais um silêncio. Mais um capítulo em branco.
Mas sigo.
Porque recusar o amor não me torna mais forte — só me afasta daquilo que ainda faz sentido.
E isso, por muito que doa, ainda me importa.
📚 Fontes e Inspiração
- bell hooks
Ideias adaptadas da obra All About Love: New Visions, onde a autora defende que amar com verdade e intenção é um ato político e de resistência.
📘 hooks, bell. All About Love: New Visions. William Morrow, 2000. - Netflix – Série: O Amor no Espectro
Frase mencionada por um dos pais de um participante (com diagnóstico dentro do espectro do autismo):
“O objetivo do primeiro encontro é ter um segundo encontro.”
🎬 Love on the Spectrum, série original da Netflix.
