Skip to content
Início » Blog » A sombra da tentação

A sombra da tentação

    Mulher adulta parada à beira de uma estrada ao entardecer, junto a um carro desfocado, olhando em frente enquanto a estrada se estende vazia. A postura transmite tensão, lucidez e decisão após um momento emocional difícil, simbolizando afastamento da tentação e escolha consciente de seguir em frente.

    Ando a ser cercada por uma tentação que chegou sem aviso pelo TikTok. Estava eu, toda contente, a carregar um vídeo e, de repente, lá estava ela. Inclusive falou comigo, e eu com ela. Neste ponto já não está no meu ombro a sussurrar como um anjinho; instalou-se na cabeça. Isto é uma tentativa de a exorcizar de uma vez. Se houver parte dois desta história, será porque falhei redondamente.

    Foram dois dates.
    No primeiro, logo a bandeira vermelha: lágrimas de um passado demasiado recente. Ignorei, porque ao vivo ele era mais bonito do que em fotos — e porque há quem seja muito mais fotogénico do que verdadeiro. O encontro foi “ok”, disse eu, só para variar na arte de fingir que não vi o que estava mesmo à frente.

    O segundo foi um passeio. No início, desconfortável: ele fazia contas de cabeça, falava sozinho sem noção de que eu estava ali a ouvir. As contas eram que um pequeno-almoço para quatro pessoas ficaria caro — e, de repente, eu já era um fardo em forma de despesa. A sério?! E aquela história de viver no momento? Em vez de inventar narrativas que nunca chegaram a acontecer…

    De volta ao carro, o passeio continuou. Almoçámos num restaurante típico, ficámos cá fora a aproveitar o sol, boa conversa e companhia também. Depois, natureza: eu quase a Branca de Neve — outra vez a Disney a estragar-me a realidade — a cantar com os animais da floresta. Vimos o Bambi, ele agarrou numa rã pequenina, bebi água fresca da fonte. Estava a correr bem, pensava eu, inocente. Até que, já na autoestrada, ele decide anunciar que não queria um terceiro encontro. Que tinha visto no meu olhar que eu estava interessada. Mas eu também vi coisas no olhar dele que não combinavam com as palavras que lhe saíam dos lábios. Nesse momento, foi como se me tivesse deixado na berma da estrada, sozinha, sem como voltar a casa. E é nesse lugar que ainda estou no que toca a ele. É esse vazio que ele me evoca. Mas, ao mesmo tempo, a sombra da carência traz consigo a tentação e a ilusão de que poderia alguma vez ser diferente.

    Ainda no carro, presa sem poder fugir, disse-lhe que o que estava a fazer era de uma crueldade inimaginável, depois de termos passado um dia tão bonito juntos. Que lhe faltava empatia. Depois calei-me, a deitar fumo por todos os lados, até que me deixou em casa. E, ao sair daquele carro, pensei: nunca deveria ter entrado. Quando vou parar de ignorar bandeiras que consigo reconhecer tão bem?

    É por isto que não quero cair em tentação.
    Não nos deixes cair em tentação.
    Ámen.

    “O amor romântico, ao prometer salvação, expõe-nos também ao risco de profunda humilhação.”
    — Eva Illouz, O Amor nos Tempos do Capitalismo (2011)

    Stick to the plan, please, just this once.
    Digo eu, a falar com os meus botões — embora suspeite que eles não falem inglês. Estes já são portugueses.

    Referência bibliográfica:
    Illouz, Eva. O Amor nos Tempos do Capitalismo. Lisboa: Edições 70, 2011.

    Deixe um comentário

    O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

    Resumo da Privacidade

    Este site utiliza cookies para te proporcionar a melhor experiência possível. As informações dos cookies são guardadas no teu navegador e permitem, por exemplo, reconhecer-te quando voltas ao site e ajudar a nossa equipa a perceber quais as secções que consideras mais úteis e interessantes.

    Cookies estritamente necessários

    O cookie estritamente necessário deve estar sempre ativado para que possamos guardar as tuas preferências de configuração de cookies.