A música que toca nas minhas sombras
Muitas sombras por aqui ultimamente. Esta é a mais escura e perigosa — mas hoje há música, não percamos o ânimo.
Talvez tenha morrido quando nasci, pelo menos a minha alma. Carrego memórias de uma alma velha, cansada, que parece ter vivido cem anos e, mesmo assim, sente que essa vida nunca mais acaba.
O riso que esconde a dor
Esta semana vi três episódios na Netflix da Cristela Alonzo, stand-up comedy. Num deles ela diz:
“Quando era criança só queria ser adulta, agora que sou adulta só quero morrer.”
O público riu-se e aplaudiu — afinal era comédia. Mas eu pensei: “Wow, que coragem.” Porque sei bem o que ela quis dizer. Para mim, não foi piada: foi um holofote virado para as minhas próprias fraquezas.
Quando o corpo grita antes da boca
Às vezes só me apetece dormir e nunca mais acordar, entrar no sono eterno como um acto de misericórdia.
Estes sintomas apareceram cedo — infância, pré-adolescência. Dava chapadas a mim própria, batia com a cabeça na parede. Na altura não havia internet. Hoje chamam self-harm, na altura eram sinais ignorados.
A ideação da morte é um sintoma grave de saúde mental debilitada. É urgente ir ao médico, falar sobre isso. Falar expõe à luz, e a luz cura.
O hospital, o choque, a Inglaterra
📞 Linha SNS24: 808 24 24 24; 24 horas por dia, todos os dias.
📞 SOS Voz Amiga: 213 544 545 – 912802669 – 963524660 – 930712500; diariamente das 15h30 às 00h30.
Já liguei para uma linha de apoio. Já estive numa ala psiquiátrica. Já vi doentes a deambular, perdidos dentro do próprio cérebro. Não é ficção — é realidade nua e crua. Difícil de encarar, ainda tabu. É por isso urgente falar.
Estávamos em 2014, Inglaterra, Bedford. Um T0 nos subúrbios. Emigrei depois de três anos de desemprego. A troika reinava em Portugal. Não estava nos meus planos sair do país — mudar de cidade talvez, mas não de país. O choque cultural, o choque da realidade.
No dia em que liguei, disseram-me para ir de imediato ao hospital. Enviei uma mensagem ao ex para ir ter comigo. Antes de falar com o psiquiatra, respondi a uma série de perguntas que já nem recordo.
Depois ele disse: “É stress por causa da mudança.” Mandou-me continuar a medicação que já tomava. Ainda tive de voltar lá mais três vezes até me darem alta.
Não andar sozinho
Nunca gostei de viver na Inglaterra, mas adaptei-me. Mais tarde conheci dois casos de senhoras que não se adaptaram. Percebi que não era só eu. Disse ao ex: “Vês? Não sou só eu.”
A doença mental é um caminho tortuoso e solitário. É importante sabermos que não somos os únicos na luta. Não somos nós que temos defeito — é esta terra onde nos colocaram.
Não andes sozinho. A solidão pode ser um caminho sem volta. Não vás por aí.
“Não sei para onde vou, / Só sei que não vou por aí!” , José Régio, “Cântico Negro” (1925).
⚠️ ALERTA
Se estás a sentir ideias suicidas ou sinais de autoagressão, procura ajuda imediatamente. Falar não é fraqueza — é sobrevivência.
📞 Linha SNS24: 808 24 24 24; 24 horas por dia, todos os dias.
📞 SOS Voz Amiga: 213 544 545 – 912802669 – 963524660 – 930712500; diariamente das 15h30 às 00h30.
Não estás sozinho. Não fiques calado.
