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As desculpas deles e as teorias minhas

    Uma mulher sentada sozinha numa esplanada ao final da noite. A mesa à frente ainda tem dois copos — um meio vazio, outro intacto — sugerindo uma presença que já partiu. O casaco dela está pousado sobre a cadeira ao lado, como se alguém tivesse acabado de se levantar.

    A sombra da tentação (Parte II)

    Falhei redondamente.

    Foi numa sexta-feira nada santa. Saímos para jantar e, para mim, foi como reencontrar um amigo que não via há dois anos. Os olhos que antes carregavam lágrimas traziam agora um tique nervoso. Não lhe disse nada — temi estragar a mood.

    Desta vez não fez contas de cabeça em voz alta, mas deixou claro que toma o pequeno-almoço em casa. Ouvi sem comentar. Também eu tomo o pequeno-almoço em casa na maioria dos dias, mas quando saio cedo dou a mim mesma o prazer de o tomar fora — é o meu pequeno luxo.

    Ao longo da noite fui perguntando se dividíamos as contas. Não queria sentir-me um fardo outra vez. Pelos vistos, ele é apenas anti-pequeno-almoço, porque disse que não gosta de falar em dividir as contas — para ele, é uma não questão.

    Mais uma vez, estar com ele foi uma experiência muito agradável… até chegar o fim. Tal e qual como da outra vez, mas com palavras diferentes. Ao despedir-se, disse-me:
    “Desejo-te tudo de bom.”
    E eu, quase em reflexo, respondi:
    “Outra vez adeus?”

    Percebendo que tinha pisado na bola, encheu-me de beijos e abraços na despedida — como quem tenta remendar palavras que já saíram tortas. Beijos e abraços tão doces que já invejo a mulher que lhe vai roubar o coração. Tenho pena de não ser essa pessoa.

    Mas o amor não se pede. Não se implora. Acontece — ou não. E connosco, não aconteceu.

    É duro aceitar esta realidade, mas é o que há.

    Disse-me — falando no geral — que estava emocionalmente indisponível, que não se via a apresentar as filhas a uma pessoa desconhecida. Desculpas. Sei bem o som dessa melodia. Quando não são os filhos, é o cão. Quando não é o cão, é o gato. Quando não é o gato, é a mota. Há sempre uma desculpa à mão de quem tem medo de amar.

    Partiu a duzentos no seu carro, e eu fiquei parada — e sozinha — tal e qual como da última vez.

    A sombra da tentação (Análise)

    O meu texto fala de uma história simples — dois adultos, um jantar, um quase reencontro. Mas o que está por baixo disso é o retrato do amor moderno: racional, comedido e, às vezes, emocionalmente cobarde.
    Já não amamos com entrega, amamos com cálculo. E quando o amor dói, tratamos isso como uma falha do sistema, não do coração.

    Ele não divide contas, mas também não divide emoções.
    Quer companhia, mas não quer partilha.
    Quer afeto, mas sem ligação.

    E eu, que sei o que valho, ainda assim procurei sinal de vida onde só havia silêncio. A teoria diz-me que o amor próprio é o caminho, mas a prática insiste em lembrar-me que há feridas que não se curam com teoria.

    Há uma frase que ficou a ecoar — “desejo-te tudo de bom”.
    Soa educado, parece nobre, mas é uma forma higiénica de dizer “adeus”. É o amor pós-moderno em versão neutra, cordial, sem rasto emocional.
    Hoje, quando alguém se despede assim, não é por falta de palavras — é por excesso de medo.

    Vivemos numa época em que o amor é uma negociação e não um encontro.
    Há uma gestão dos afetos, uma racionalização do desejo. O amor transformou-se num projeto com cláusulas não escritas: sentir, mas sem depender; dar, mas sem perder; estar, mas sem se envolver.
    E, no fim, todos tentam sair de cena com boa figura — mesmo quando pisam na bola.

    O amor de hoje parece um contrato social temporário, onde cada um protege o próprio ego como se fosse um bem de luxo.
    E talvez seja isso que mais me entristece — não a falta de amor, mas a falta de coragem para o viver.

    Referências bibliográficas:

    • Illouz, Eva (2012). Por que o amor dói: uma explicação sociológica. Lisboa: Temas e Debates.
    • Illouz, Eva (2011). O futuro do amor: romantismo, capitalismo e o poder da emoção. Lisboa: Relógio D’Água.
    • Illouz, Eva (2007). Cold Intimacies: The Making of Emotional Capitalism. Cambridge: Polity Press.

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