Há rios que nos atravessam mesmo quando já não se estendem ao nosso lado.
E há memórias que não secam, mesmo quando a vida segue em frente, insistente e indiferente ao que ficou para trás.
Nesse lado sul de todos os rios que correm entre nós, eu vejo-te.
Não porque estejas lá, mas porque a tua ausência ocupa espaço.
Nostalgia. Tristeza. Solidão. Carência. Suspiro. Dor.
Palavras que, alinhadas assim, parecem quase um fado mal cantado. Não há melodia que as suavize. São cruas, nuas, sem disfarce. E, ainda assim, dizem a verdade: ainda te penso.
Não como antes.
Já não com o desespero de quem espera um regresso impossível. Agora é diferente. É como um eco distante — não dói como dantes, mas continua a fazer-se ouvir.
Sei que não eras perfeito. Sei que, se o tempo tivesse sido mais longo, talvez tivesses falhado como todos os outros. Mas não falhaste. E por isso deixaste-me algo raro: a certeza de que pessoas especiais existem.
E talvez seja isso que mais nos assombra.
Não os que foram um erro, mas os que, noutro tempo, noutra vida, podiam ter sido tudo.
A vida tem um sentido de humor estranho. Quando já estamos prontos para desistir, aparece alguém que nos faz acreditar. Quando já estamos convencidos de que não há mais, surge uma exceção. O problema é que, muitas vezes, as exceções não ficam.
Mas talvez não tenham de ficar.
Talvez o seu papel seja apenas esse: mostrar que o desencanto não é regra. Que o erro não é estrutural. Que o problema nunca foi esperar demasiado, mas aceitar demasiado pouco.
Há nostalgia, tristeza, solidão, carência, suspiro e dor.
Mas há também esta certeza silenciosa: o mundo ainda guarda pessoas que valem a pena.
E, por agora, isso é suficiente.
